![Dennis Smith, falou sobre novos movimentos religiosos na América Latina. [Foto: UMESP]](/picture/Smith_Dennis_df3b06.jpg)
Ética dos evangélicos não se difere de outros grupos, diz missionário
GUATEMALA, Guatemala, Novembro 12, 2003
O poder político fascina os evangélicos, mas também lhes dá medo, anotou o coordenador da Taxi Heathrow Airport Pastoral da Comunicação do Centro Evangélico de Estudos Pastorais na América Central (CEDEPCA), missionário Dennis Smith.
Smith apresentou palestra sobre "Ética, política e o sonho de Deus para a Guatemala", em evento organizado, no dia 17 de outubro, por Vozes Evangélicas de Reflexão, Igreja Evangélica São João Apóstolo, Fraternidade Teológica Latino-Americana (FTL) e a Conferência de Igrejas Evangélicas da Guatemala (CIEDEG).
"Nos últimos 30 anos aprendemos que o poder político está construído sobre as bases da corrupção, mentira, abuso, violência e impunidade. Esses são os fantasmas que espreitam todo servidor público", anotou.
Assim, não é de surpreender que muitas pessoas de boa vontade, sejam evangélicas, católicas, mayas ou atéias, terminem corrompidas por esse sistema. Nem é de surpreender que a outros tantos, valendo-se do discurso religioso, esfregam-lhes as mãos para terem um bom ganho, convertendo o patrimônio da nação em botim próprio, frisou.
Smith lembrou que nos bairros e aldeias da "Guatebuena", quando era preciso recorrer a uma pessoa digna e honrada para cumprir uma função delicada nas comunidades – ser tesoureira do comitê de vizinhos, fiscal da cooperativa, etc. – buscava-se um evangélico. "Já não é mais assim", lamentou.
O missionário presbiteriano lembrou uma assembléia de líderes evangélicos realizada em Quetzaltenango em 1982. Tratava-se de preparar estratégias pastorais para o centenário da presença evangélica no país. Corria o boato de que Aníbal Guevara, candidato da situação à presidência da República, compareceria aos festejos.
Guevara chegou num helicóptero e passou a distribuir cadernos e material didático aos evangélicos, dizendo que seriam úteis na escola dominical. Depois um pastor comentou: "Será que ele pensava que venderíamos nossa herança por uma bolsa de artigos escolares?"
Aquele ano – 1982 – foi difícil. Massacres, atentados, terra arrasada. Foi o ano em que o general Ríos Montt, supostamente evangélico, assumiu, de fato, a chefia do governo. "Vocês certamente se lembrarão do enfrentamento com o bispo de Roma e daqueles irmãos que, cantando coros evangélicos, foram colocados no paredão, sentenciados por um tribunal especial", relatou Smith.
Smith prosseguiu o seu percurso histórico mental, apontando para a pretendida formação de um partido político que aglutinasse todos os evangélicos. "Vocês se lembram do sonho de alcançar certa massa crítica da população evangélica, que transformaria a vida ética, moral e social da nação ? Lembram da gestão notoriamente corrupta de outro presidente (Jorge Serrano) que se chamava evangélico?"- perguntou o palestrante.
Nessa trajetória Smith chegou aos dias de hoje, quando lhe vieram à mente ministros de Estado, altos funcionários, "que vimos em nossas igrejas como levantavam as mãos em louvor. Mas sabemos que essas pessoas acabam de construir casa milionária em bairro exclusivo. E sabemos que o vencimento de um funcionário público não dá para tanto", contabilizou.
Recorrendo à frase de Harold Segura, da Visão Mundial – "padecemos de uma mentalidade neognóstica"- "consideramo-nos um grupo de iluminados, de portadores de conhecimento privilegiado, de praticantes da santidade e da justiça".
Na prática, "nos nossos comportamentos cotidianos, não conseguimos nos distinguir dos demais. A ética dos evangélicos têm sido a mesma da população em geral", denunciou.
"Vivemos num ambiente permanente de mentira, de avareza, de corrupção, de violência", disse. Teologicamente, "não exercemos nenhum monopólio sobre a graça divina. Não somos diferentes, nem especiais", disse, para acrescentar em seguida: "Jesus pode transformar nossa mentalidade. Mas muitas vezes, nossa mentalidade segue sendo exatamente a mesma que a de nossos vizinhos".
A essas alturas, não vale a pena colocar a culpa em Satanás. "É para Jesus que temos que prestar contas. O Deus de Jesus está presente na história. O Deus de Jesus implementará seus propósitos com ou sem a gente. São os princípios de seu Reino que devem converter-se em normas do cotidiano nas nossas vidas, tanto em nível pessoal como em nível comunitário", enfatizou.
Pela graça de Deus as pessoas são perdoadas. "Deus continuará atuando na história por meio de muitas comunidades de fé que não são as nossas", afirmou. Já sopram os ventos da fiscalização do poder público e do fortalecimento do estado de direito. Há servidores públicos que serviram a nação com absoluta integridade e honradez. Alguns são evangélicos, a maioria não, comparou.
Smith perguntou: "Como podemos ajudar a tornar realidade o sonho de Deus para a Guatemala?" Primeiro, respondeu, é preciso reconhecer que "temos pouca experiência na gestão pública e de como incidir nos processos do governo. Não sabemos como formular iniciativas políticas viáveis nem como negociar sua implementação", apontou.
Assim, "temos que construir uma ética pública a partir de nossos púlpitos, nossas escolas dominicais e nossos colégios. Temos que fomentar espaços de debate sobre ética, fé e gestão pública. Temos que insistir na fiscalização transparente e permanente do poder em nossas próprias instituições e também no Estado".
É preciso recuperar a memória do papel que os irmãos quakers tiveram na batalha contra a escravidão no século XVIII; recuperar a memória do papel que metodistas tiveram na batalha contra o trabalho infantil no século XIX; recuperar a memória do papel que igrejas tiveram na batalha contra o apartheid na África do Sul nesse século, enfatizou.
É preciso se integrar, com humildade, energia e decisão nos espaços existentes na sociedade civil. "Não somos os primeiros, nem os únicos que anelamos que o exercício do poder político seja para o bem comum", disse.
"Por sermos cristãos evangélicos, devemos participar naqueles grupos comunitários que buscam assegurar a seguridade cidadã, combatendo a onda de violência contra mulheres jovens em áreas marginais, exigindo do governo investigações sérias de aparentes casos de limpeza social; devemos assegurar, especialmente, a segurança física das crianças de rua", defendeu.
O Deus de Jesus, e desde o início dos tempos, é o Deus que protege viúvas, órfãs e forasteiros. O Deus de Jesus ocupa-se dos desprotegidos, dos excluídos. "Por sermos cristãos evangélicos, devemos participar de grupos defensores dos direitos humanos, devemos defender o pluralismo e a diversidade cultural".
Tudo isso cabe ser feito não motivados por ideologias partidaristas, nem para ganhar mais adeptos nas igrejas. "Tampouco o devemos fazer para afiançar nossa quota de poder frente a outros agrupamentos religiosos. Isso devemos fazer porque assim é a Guatemala com a qual Deus sonha", proclamou.

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