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Sábado, 27 de Dezembro de 2003

Fórum Social Brasileiro avalia governo Lula

BELO HORIZONTE, Brasil, Novembro 10, 2003

Ele foi aplaudidíssimo no III Fórum Social Mundial de Porto Alegre, em janeiro, quando estava Taxi Heathrow Airport há menos de um mês no governo federal. Passado quase um ano, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o seu governo receberam uma avaliação crítica do Fórum Social Brasileiro (FSB), reunido de 6 a 9 de novembro nesta capital.

"Os que sonhavam com uma nova sociedade depositaram sua esperança no governo Lula. Porém, diante do quadro das violências, do não-cumprimento das promessas da campanha eleitoral e dos compromissos históricos de construção de uma nova sociedade, a esperança cedeu lugar à perplexidade", diz avaliação do Conselho Indigenista Missionário (CIMI) levada ao seminário sobre povos indígenas e política indigenista do FSB.

O CIMI e os povos indígenas esperavam que o governo Lula sinalizasse o anunciado compromisso de resgatar a dívida social do país com esse segmento, implementando uma política indigenista que garantisse o direito desses povos. "Infelizmente o que se viu foi a barganha de terra indígenas", lamentou.

O fortalecimento de projetos de militarização e ocupação das fronteiras, como o Calha Norte, "mostra que o atual governo dá continuidade à política colonialista dos governos anteriores", aponta o CIMI. Os povos indígenas, informa esse Conselho, não impedem a propriedade privada, "questionam, porém, o latifúndio, que faz da cidadania um privilégio dos ‘donos da terra’".

Em entrevista a Rogéria Araújo, da agência Adital, o coordenador da Consulta Popular, César Benjamin, disse que no país existem muitos movimentos sociais ativos, existem milhares de reuniões de base, existe uma teia de organização, e que o futuro do Brasil "vai passar muito mais por aí do que pela politicagem de Brasília".

Benjamin frisou que o governo Lula vem adotando política conservadoras. Um dos críticos mais ferozes ao governo do Partido dos Trabalhadores no FSB foi o professor de História, Valério Arkari, da Universidade de São Paulo.

"O governo Lula está fazendo uma opção pelo capitalismo, que é incompatível com os interesses estratégicos do povo", proclamou em meio a aplausos e vaias do público, segundo relato dos repórteres Dilene Ferreira e Eduardo Franco, enviados especiais da Adital a Belo Horizonte.

"Se o Brasil aceitar a Área de Livre Comércio das Américas (ALCA) ele será reduzido a colônia dos Estados Unidos", alertou o professor durante a conferência intitulada "Estado e movimentos sociais: repressão, cooperação, cooptação".

Na oficina "Por onde tem ido e por onde irá o governo Lula", o economista e cientista político licenciado da Universidade Federal de Minas Gerais para a Secretaria Geral da Presidência da República, Juarez Guimarães, disse que ainda é prematuro dizer o que vai acontecer no governo Lula.

Alertou, contudo, que "é preciso alterar de modo substantivo dois grandes pilares da política econômica: a agenda monetarista do Banco Central, que tem sido fortemente conservadora, e a agenda restritiva dos gastos públicos".

O professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Reinaldo Gonçalves, afirmou, categoricamente, segundo relato da jornalista Alcidéia Trancoso, da agência Adital, que a política econômica do governo Lula repete os mesmos erros do governo Fernando Henrique Cardoso e mantém o país numa trajetória de instabilidade e crise.

Respondendo os questionamentos do professor Valério Arkari, o presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Luiz Marinho, alertou que é preciso ter a sabedoria de não exagerar, "para não perdermos o bonde da história". Lembrou que esse governo foi conquistado pelo voto num processo democrático e de alianças.

É preciso entender, frisou, que a vitória de Lula não significa que a luta dos movimentos sociais possa ser encerrada. "Muito pelo contrário, estamos num processo de construção de um país melhor e isso depende de muita luta", destacou.

Na última conferência do FSB, realizada no domingo pela manhã, denominada "Ação global dos movimentos sociais", o economista Marcos Arruda, do Centro de Estudos de Política Econômica do Cone Sul, afirmou que a humanidade precisa, urgentemente, de um sistema de consumo ético e organizado, que permita a "economia do suficiente e a partilha do excedente".

Na mesma conferência, o educador Moacir Gadotti assinalou que o FSB é um espaço importante para a convivência e unificação de algumas bandeiras de lutas dos movimentos sociais. Segundo relato de Dilene Ferreira e Eduardo Franco, Gadotti disse que os Fóruns Sociais reacenderam a esperança e o desejo de luta, que os partidários do neoliberalismo acreditavam ter sepultado.

Mais de 1,2 mil organizações sociais e 23 mil pessoas participaram do FSB de Belo Horizonte. Em entrevista à Adital, Lúcia Simões, da equipe organizadora do Fórum, informou que nenhuma agenda de trabalho foi tirada do evento, deixando, assim, os movimentos sociais livres para definirem o que pretendem fazer, seja juntos ou individualmente, daqui para frente.