Voltar ao início

Quarta-feira, 19 de Novembro de 2003

Comunicadora peruana pergunta "quem tem o poder?"

SÂO PAULO, Brasil, Novembro 7, 2003

 "Não podemos desligar informação de comunicação nem priorizar uma sobre a outra, e sim o Taxi Heathrow Airport comunicacional tem mais a ver com o projeto de sociedade que queremos. Criar demanda informativa da população é uma tarefa imensa e complexa", sustentou a comunicadora peruana Rosa María Alfaro.

A dirigente da Associação de Comunicadores Sociais Calandria palestrou, hoje, no seminário Direitos do Cidadão na Sociedade da Informação, que se desenvolve na Universidade Metodista de São Paulo, de 6 a 9 de novembro, numa promoção da Associação Mundial para a Comunicação Cristã (WACC, a sigla em inglês).

Para conseguir esse objetivo, disse, é preciso considerar que comunicação-educação-informação são elementos chaves numa interação. Daí a importância de uma pedagogia comunicativa para conseguir a demanda informativa, para que, assim, o acesso tenha sentido para mais populações do mundo, disse.

Nas últimas décadas, assinalou, a tendência foi de aplicar as lógicas institucionais e de produtividade do mundo empresarial ao campo do social e do comunicacional com vistas a ganhar efetividade e incidência. Esse translado nem sempre rendeu frutos no sentido de motivar o seu uso.

Embora fossem introduzidos níveis de modernização, não ocasionou transformações de realidades econômicas injustas ou de problemas comunicacionais de submissão da palavra ao interior de um mundo submetido a confrontações, guerras, violência, discriminação e imposição autoritária, disse.

O mesmo acontece com as novas tecnologias. Embora haja um processo de apropriação coletiva, a exclusão social e a submissão ao poder na qual vivem muitos setores da população se recrudesce, aprofundando as brechas entre os que manejam tecnologias e dos que sequer pretendem aprendê-la.

O acesso a essas novas tecnologias, propugnado como meta pela UNESCO, segue sendo pensada a partir delas mesmas. Na próxima Cúpula da Informação será indagado como essas tecnologias chegarão a todos, sem perguntar como se faz para que todos possam aproximar-se a elas a partir de uma inclusão social mais integral? De que forma as tecnologias da informação e comunicação (TIC) podem contribuir para se alcançar essa meta de desenvolvimento mais amplo? – indagou.

Evidentemente, está se caminhando para uma sociedade da informação complexa e diferenciada, mas com a informação não se resolvem conflitos e problemas locais e globais. Por sua vez, a comunicação e integração social se mantêm estancadas. O projeto de sociedade que supõe a ênfase no informativo pode ser muito perigosa, mas se sustenta em outro projeto, de paz, harmonia e justiça no mundo, advertiu Alfaro.

É evidente que os Estados Unidos são o país mais poderoso no uso da Internet em quantidade de computadores e em capacidade de processamento da computação. Trata-se de toda uma instrumentalidade altamente sofisticada, mas a serviço de interesses e capacidades específicos, manejados para adquirir mais domínio geopolítico no mundo, disse.

No século anterior, as tecnologias audiovisuais cresceram e ultrapassaram as previsões sobre seu crescimento, e gestaram uma sociedade "sobrecomunicada", mas incapaz de gerar interesses e diálogos comuns. A partir de seu papel de espectadores, os cidadãos podiam ver o mundo sem pertencer necessariamente a ele. As necessidades de comunicação não foram cobertas pelas mídias de massa.

Apresenta-se a pesquisa como ferramenta indispensável para a democracia. Foi construída uma identificação entre opinião pública e percentagem de aceitação, colocando em crise governantes que não a têm. As emotividades atuam como fatores culturais altamente significativas e em contraposição ao uso da razão, acrescentou.

Por outro lado, criou-se uma cultura do enfrentamento diante dos medos que a rua gera. Uma cultura centrada no prazer ou na diversão, não como complemento à informação, mas contraditória a si mesma. Assim, a informação requeria ser mais chamativa, substituindo o uso da análise, da argumentação e da razão à lógica do escândalo e da farsa, afirmou.

Assim, explicou, foram sendo gestadas sociedades de opinião sem informação. Tampouco a academia, os especialistas e a sociedade civil empreenderam esforços suficiente para despertar a paixão pela informação e o conhecimento. O jornalismo de investigação se parece a cada dia mais ao jornalismo policial. As pessoas não precisam de informação para opinar ou viver, não a necessitam.

Outro problema tem a ver com a identificação entre o dado informativo e o conhecimento. A idéia de "especialista" hoje baseia-se na acumulação de dados que esse possui, de modo especial aqueles de caráter operativo. A organização do pensamento pouco importa, tampouco a compreensão e a análise do que ocorre na sociedade.

O ofuscamento pelo dado ou imagem noticiosa, processada tecnologicamente, cria uma ilusão informativa, na qual o pensamento teórico já não tem lugar. A demanda informativa e pelo conhecimento das pessoas não é esse. Nesse sentido, tanto a informação como os meios deveriam transformar sua vontade de mudar para poder chegar pedagogicamente às pessoas, defendeu Alfaro.