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Segunda-feira, 24 de Novembro de 2003

Ariovaldo Ramos, presidente da VM-Brasil questiona manipulação religiosa no CBE2 [Foto:VM-Brasil]
Ariovaldo Ramos, presidente da VM-Brasil questiona manipulação religiosa no CBE2 [Foto:VM-Brasil]

A pobreza é negra, o demônio não

BELO HORIZONTE, Brasil, Novembro 7, 2003

Para viver a missão integral, a Igreja precisa encarar a temática racial, desconstruir a demonização Taxi Heathrow Airport da cultura afro e voltar os olhares às mais de duas mil comunidades remanescentes de quilombos no país. A pobreza é negra no Brasil.

"A Igreja tem que fazer uma reparação teológica em favor da negritude", disse o coordenador do Fórum de Lideranças Negras Evangélicas, Hernani da Silva, no II Congresso Brasileiro de Evangelização (CBE2), reunido em Belo Horizonte, dias 27 de outubro a 1 de novembro.

Hernani liderou o grupo de discussão sobre "discriminação, exclusão e inclusão" no CBE2. O Congresso abriu espaço para a questão da negritude, motivado pela sua compreensão social do evangelho de Cristo e da perspectiva de alcançar o ser humano como um todo.

Ainda assim, poucos participantes do CBE2, segundo Hernani, tinham algum conhecimento da questão do negro no Brasil e muitos afrodescendentes, participantes do evento, vibraram ao perceber que a Igreja começa a abrir espaços em sua agenda para esse tema.

No grupo de discussão, Hernani explicou como nasce um preconceito e mostrou as diversas formas preconceituosas que existem nas igrejas evangélicas em relação à negritude. Evangélicos demonizam a cultura afro. "Para desconstruir essa demonização, precisamos olhar o cristianismo também pela sua matriz africana", disse Hernani.

O presidente da Visão Mundial Brasil, reverendo Ariovaldo Ramos, destacou no CEB2 os contrastes que existem no Brasil, que tem uma das democracias raciais mais celebradas ao lado de um racismo pérfido, "pois sutil, não confessado e disfarçado de problema sócio-econômico, onde o negro, cantado em prosa e verso, não consegue ser cidadão e está condenado à pobreza e à ignorância".

O Brasil tem um dos povos que mais confessam a existência de Deus "ao lado de uma vergonhosa manipulação religiosa e de arraigadas práticas de superstição, que o torna prisioneiro de forças malignas", comparou.

Como um profeta do Antigo Testamento, Ramos apontou o dedo para aquela parte da igreja brasileira que mais cresce, aparentemente. Essa, ao invés de denunciar a injustiça social e incentivar uma economia solidária, "passou a pregar uma teologia que sustentava a desigualdade, ao afirmar que a riqueza deveria ser o alvo do crente".

Ao invés de denunciar a miséria e a dívida do Estado para com os excluídos, essa igreja "passou a denunciar a provável pequena fé dos desgraçados"; ao invés de combater o racismo, "passou a estigmatizar como maligno tudo o que se relaciona com a cultura negra, como se o demônio fosse negro e, portanto, tudo o que é negro fosse demônio".

O pastor disse que é preciso repensar a teologia sistemática e a identidade protestante, e refletir "sobre formas de fazer entendida a mensagem da cruz num mundo em mutação".

Destacou: "Temos um Reino para viver e manifestar", lembrando que o crente não está sozinho nisso, mas conta com a presença do Espírito Santo, que levará a Igreja no Brasil a um avivamento que ainda não conheceu, o avivamento que chama à história o clamor de Jesus: "Bem-aventurados os pobres, porque deles é o Reino de Deus".