Cardeal promove a "globalização da solidariedade"
TEGUCIGALPA, Honduras, Novembro 4, 2003
O cardeal arcebispo de Tegucigalpa, Oscar Andrés Rodríguez, um dos latino-americanos considerado papável, precisou pontos Taxi Heathrow Airport de vista sobre temas cruciais para a igreja em entrevista difundida pela rede global BBC.
Rodríguez nasceu em 1941, foi ordenado sacerdote em 1970 e converteu-se, em 2001, no primeiro cardeal de Honduras. Defensor dos direitos humanos e do combate à pobreza, presidiu a comissão do Jubileu 2000 na América Latina para o perdão da dívida externa, atuou como porta-voz do Vaticano perante o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI) e hoje promove a "globalização da solidariedade".
Perguntado sobre problemas sociais e políticos que desafiam a Igreja Católica no mundo, o cardeal respondeu que quase toda a América Latina vive em sistemas democráticos, mas são democracias muito frágeis, precisamente pelo componente econômico.
O problema mais desafiante é a pobreza no continente, assinalou. Em lugar de diminuir, a pobreza segue crescendo. "Isso nos desafia, inclusive de um ponto de vista pastoral", disse. Revelou que a igreja está comprometida com os planos de redução da pobreza, um dos quais contempla a redução da dívida externa.
"Creio que esse deve ser o trabalho dos próximos anos", além de conscientizar a comunidade internacional de que a globalização econômica deve puxar a globalização da solidariedade, assinalou.
Em segundo lugar, prosseguiu, "devemos pensar em como chegar à Organização Mundial do Comércio, com a qual tivemos, este ano, uma frustração na Cúpula de Cancún. É preciso seguir com as negociações para que haja um comércio mais justo, com mais oportunidades para os países pobres".
Quanto à dívida externa, o cardeal arrolou que os países pobres precisam de ajuda para o desenvolvimento, e não de mais empréstimos para continuar pagando para sempre essa dívida e com juros elevados.
"Creio que há uma tendência que pode ter futuro, que é a de buscar o direito de insolvência, que uma entidade independente do FMI decida se um determinado país pode pagar ou deve pagar" a dívida.
Ao ser indagado a respeito da Teologia da Libertação, o cardeal disse que ela produziu muitos frutos, como as comunidades eclesiais de base, a pastoral a favor dos pobres, a organização popular, uma liturgia mais participativa.
Perguntado se a explosão demográfica na América Latina não justifica o controle de natalidade, o cardeal explicou que o problema está distorcido, porque ele não está na população, mas na irresponsabilidade na transmissão da vida. "A vida não é um perigo, é um dom, mas é necessário transmiti-la de maneira responsável".
A América Latina, definiu, não é um continente superpovoado. O Uruguai, que foi um dos primeiros países que baixou sua natalidade, hoje em dia tem um problema, porque lá não existem crianças nem jovens. Não há indústria que possa progredir, porque não tem consumidores. Essa espécie de "terrorismo demográfico", que começou a ser implantado nos anos 70 do século passado, produziu uma mentalidade distorcida.
Com relação à religião muçulmana, Rodríguez disse que os cristãos não têm um enfoque negativo do islamismo. "Creio que o diálogo inter-religioso é importantíssimo. Para mim, há um perigo na radicalização e no fanatismo. Um ramo do islamismo fez com que em muitos lugares se considere que todos os muçulmanos são terroristas".
O cardeal hondurenho entende que o primeiro desafio que o próximo pontífice terá de encarar é como levar os valores éticos a uma sociedade que pode estar se secularizando progressivamente.
O próximo papa, disse, deverá ser quem Deus escolher. "Não é impossível um papa latino-americano, porque nossa igreja pôde desenvolver-se. Temos pessoas muito capazes e me parece que pode chegar o tempo de um papa latino-americano".
Sobre a possibilidade de ser eleito papa, respondeu: "É uma pergunta que nem eu mesmo me faço porque isso não depende da gente, nem humanamente posso aspirar a algo como isso. É algo que só vem de Deus e nem penso nisso".
Perguntado que medidas a Igreja Católica tomaria diante do avanço dos evangélicos na América Latina Rodríguez apontou: "Eu diria que a impressão de se trata de um avanço vertiginoso é só inicial".
De fato, continuou, a Igreja Católica está crescendo em todos os países. "No meu país, embora haja invasão dessas seitas, sobretudo das fundamentalistas, a igreja cresce a cada ano. Isso não deve nos preocupar, porque não estamos competindo com ninguém, somente estamos anunciando o evangelho", afirmou.
"Não deve preocupar-nos que algumas pessoas que se diziam católicas tenham ido para outras denominações. Quero dizer que não o eram e então encontraram uma resposta, que é positiva", afiançou.
O caminho para os católicos está em "evangelizar com maior profundidade e dar maior formação religiosa aos membros da igreja. Muitos são parte da Igreja Católica porque foram batizados, mas não receberam uma formação sólida que lhes permite viver sua fé em profundidade", explicou.

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