
O secretário de Culto
Hilario Wynarczyk, BUENOS AIRES, Argentina, Novembro 4, 2003
As religiões e mais ainda o diálogo inter-religioso podem contribuir, no cenário de desigualdades sociais, ao desenvolvimento de valores capazes de desativar o funcionamento do mundo ordenado ao redor de valores contrários à solidariedade.
A opinião é do secretário de Culto da Argentina, Guillermo Olivieri, em artigo publicado na coluna "Debate", do jornal Clarín, no dia 1. de novembro. Olivieri assumiu a secretaria a convite do presidente da República Néstor Kirchner. Ele provém de uma ativa militância política, mas não registra antecedentes no campo religioso.
A equipe técnica da Secretaria tem, sim, uma forte imersão na área de culto, uma parte dela remanescente da gestão anterior, do secretário Esteban Caselli.
O artigo, intitulado "Recuperar valores espirituais", mostra uma grande preocupação com a desigualdade sócio-econômica, o desalento e a violência, situando o eixo do problema no fundamentalismo capitalista. As religiões podem contribuir, nesse cenário, a desenvolver valores voltados à solidariedade, escreveu.
As idéias de Olivieri são substancialmente políticas e referem-se à nação, mas mostram sua perspectiva quanto às religiões, contempladas basicamente como uma ferramenta da sociedade, capaz de preservarem a paz, sempre e quando os que a compõem entenderem que a sociedade é uma em sua identidade e múltipla em seus componentes.
Essa idéia apareceu nos albores da modernidade (mas trata-se de uma coincidência, uma vez que Olivieri não se referiu a ela) como a resposta da razão articulada em torno das religiões positivas e o direito internacional contra a fragmentação, o caos e a guerra.
Olivieri descreveu um século XX marcado pelo paralelo dramático entre os embates bélicos, holocausto, massacres e as declarações universais dos direitos da pessoa humana, a inclusão das mulheres nas democracias e a criação das Nações Unidas.
O panorama histórico que o artigo abre desemboca numa realidade marcada pelo nihilismo e a falta de solidariedade. Olivieri centra o discurso sobre uma antinomia entre os interesses privados, de um lado, e o Estado e os valores espirituais, de outro.
"O desalento de um mundo que inverteu os termos entre o público e o privado, fazendo dos interesses privados o centro do Estado, chegou a minar também os valores espirituais", assinalou. No interior desse cenário "hoje se percebe a necessidade de recuperar valores que transcendem os do mercado".
Opondo-se à realidade marcada pela negação e ênfase nas regras do mercado, o artigo situa a resposta no fortalecimento da identidade através da aceitação da diversidade. Primeiro, define cultura, dizendo que ela "significa tanto cultivo - da terra, da natureza, da materialidade - como culto dessa mesma terra consagrada a uma transcendência que, através da arte e da religião, deixam aparecer a vida do espírito".
Referindo-se implicitamente aos argentinos, o secretário sustentou que "afirmar nossa identidade é vivê-la, plural como é, mestiça no material e no espiritual".
Também sustentou que no diálogo entre as culturas e o respeito pelas diferenças há um caminho para a paz, uma via para vencer o nihilismo e o totalitarismo do pensamento único. Ele definiu paz dizendo que ela é, na história da humanidade, um momento sempre ameaçado pela violência.
Ao dar a conhecer as propostas do diálogo inter-religioso e vincular as religiões com o fortalecimento de uma educação em valores, elas fortalecem a paz e debilitam a violência, disse.
O artigo termina afirmando a necessidade de utilizar os valores para lutar contra um mundo desigual, marcado pela opulência que os poucos constróem sobre a miséria do conjunto do povo, a favor da solidariedade, da justiça e da alegria.
O artigo apresenta algumas idéias do secretário de Culto. Informações recentes, publicadas no mesmo Clarín, mostraram que a política de inscrição de cultos não-católicos, pertencentes à jurisdição administrativa da Secretaria, é gradualmente menos aberta quanto à diversidade de cultos existentes no país.
A nota, publicada pelo jornalista Sergio Rubín no dia 8 de setembro de 2003, diz que cada vez é mais difícil o Estado reconhecer uma nova confissão religiosa. A rejeição a pedidos de inscrição no Registro de Culto da Chancelaria cresceram na última década, chegando a uma média de 30%.
Mas no último ano a negativa subiu para além dos 80%. Esse percentual é o mais alto da década, segundo o Clarín. A umbandda e o espiritismo estão entre as religiões menos aceitas, de acordo com a nota. A falta do registro não as impede, contudo, de atuarem no país, que é democrático, mas as priva de alguns benefícios.
----------------
Hilario Wynarczyk. Sociólogo da religião, membro da Igreja Evangélica do Rio da Prata, Argentina.

Portada
Início
Comenta este artigo