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Quarta-feira, 19 de Novembro de 2003

Poder imperial também coloniza os desejos, diz teólogo

SÂO PAULO, Brasil, Outubro 31, 2003

Na conferência intitulada "O império e a cruz", o biblista e professor do Instituto Superior Taxi Heathrow Airport Evangélico de Estudos Teológicos (Isedet) Néstor Míguez afirmou que o novo poder imperial também coloniza os desejos para impulsionar o consumo.

Míguez falou no 3. Encontro Latino-Americano e Caribenho de Estudos Wesleyanos, reunido desde terça-feira, 28, na Faculdade de Teologia da Universidade Metodista de São Paulo, localizada em São Bernardo do Campo.

Na sua exposição, ontem, Míguez apontou as diferenças existentes entre o império romano – o maior da antigüidade -, onde viveram e morreram Jesus e Paulo, o império do nascente capitalismo industrial – em que viveu John Wesley – e o império do capitalismo tardio, que se impõe hoje ao mundo.

É possível ver neles elementos comuns nas construções imperiais, arrolou Míguez, como "a idéia de poder que os impulsiona e que justifica a mentalidade imperial, suas condutas e éticas opressoras".

Os impérios, anotou, caracterizaram-se ao longo da história por duas atitudes: a demonstração de que a solução de todos os problemas reside no uso da força e a promoção da liberdade até onde seja necessário para garanti-la.

O capitalismo financeiro contemporâneo se aprova, como os outros impérios, nesse conceito central da liberdade: a defesa da liberdade do mercado e das liberdades individuais, ou seja, do "mundo livre".

A globalização, disse, permitiu construir esse império, no qual o eixo econômico não é o capital produtivo, mas o capital financeiro. A tecnologia permite a circulação do crédito em forma antes nunca imaginada. Em segundos, pode-se ganhar muito dinheiro, dinheiro virtual.

Nesse capitalismo o peso decisivo é o consumo. Transformado em valor cultural, o consumo já não se relaciona com as necessidades reais da população, mas responde a demandas criadas por uma "classe global" que se defronta com as "classes locais".

Tudo se produz para ser vendido em nível global e não para se consumir no plano local. A criação de desejos consumistas é a chave desse processo. Antes que se satisfaça um desejo, é preciso criar outro. Portanto, o ser humano, ao invés de ser produtor, converte-se em consumidor; consumir é satisfazer os desejos e viver em liberdade.

Para Néstor Míguez, a história do império romano mostra que ele crucificava seus opositores, quem se atrevesse a reclamar o exercício de sua liberdade. O teólogo mencionou o texto de Filipenses 2.5-11, em que Paulo diz que Cristo se fez escravo e enfrentou a morte, "e morte de cruz". Essas expressões, explicou, "fazer-se como escravo" e "morte de cruz" mostram o sentido da morte de Jesus na cruz.

Jesus, enfatizou o teólogo argentino, não apenas se fez humano, mas escravo. Nesse tempo, os escravos não eram considerados humanos, mas ferramentas de trabalho. O escravo rebelde, que reclamava humanidade e liberdade, era crucificado. "Jesus se fez escravo e foi obediente até a morte, e morte de cruz", disse Paulo.

Obediente a quem? – perguntou Míguez, que respondeu em seguida que Jesus não obedeceu o império, não se submeteu a ele. Quem obedece ao império não morre na cruz. Jesus foi como um escravo rebelde, que não renunciou a sua humanidade nem a sua liberdade. Ele foi obediente ao processo de Deus, e morreu como morriam os escravos.

Por isso, assinalou Míguez, Paulo disse que a cruz é escândalo e loucura (I Corintios 2). A cruz revela uma liberdade contrária à liberdade que o poder oferece. A teologia paulina da cruz não deve ser entendida como teologia do sofrimento vicário, como morte expiatória (assim o entendia também a tradição wesleyana), mas como um chamamento à liberdade, proclamou.

Não à liberdade de apropriar-se do outro para satisfação própria, mas liberdade com o outro, com responsabilidade para com ele. A satisfação conjunta dos desejos, a lógica atual do indivíduo livre no mercado livre, imposta pelo império, anula o desejo de outros e se concentra no desejo individual, isolado.

Guia-se pelas correntes invisíveis do "salário, que compra a força de trabalho, do império que busca conquistar a subjetividade mediante a conquista do núcleo motor da conduta humana, o desejo", sublinhou Míguez.

O teólogo metodista citou, como perspectiva, o texto bíblico que diz "em esperança somos salvos". Para isso, disse, é necessário construir um "sujeito desimperializado", produto de uma "nova criação" (evocando a teologia wesleyana), que "vença a prisão do desejo para fazer-se desejo livre".

"Devemos ver a cruz não como o simples lugar da vítima, mas como o lugar onde a vítima reivindica sua condição humana e resiste à colonização do desejo. Isso é ‘tomar a cruz’", afirmou. Essa dimensão tem implicações muito fortes sobre a noção wesleyana de "santidade social", enfatizou o teólogo.