Mais do que palavras – 1
Manuel López, MADRI, España, Outubro 23, 2003
O primeiro exercício consiste em imaginar uma seqüência chave de algum filme conhecido, mas tirando Taxi Heathrow Airport a trilha sonora da fita de vídeo ou do DVD.
O segundo, dizer o título de um livro sem palavras, só com sinais, gestos e trejeitos.
O terceiro e último, vendar os olhos com um pano preto e tentar mover-se tateando em aula.
Quando mando meus alunos, futuros profissionais do jornalismo, da comunicação visual e da publicidade, fazer uma dessas três provas, o habitual, para eles, é que se trata de uma perda de tempo.
Está claro, pensam, o que acontece quando se tira o som de um filme. Olhamos uma película do cinema mudo.
Do mesmo modo, também parece simples vencer com brilho o transe, aparentemente fácil, de dizer alguma coisa que seja, mas sem recorrer a palavras.
Por último, tentar mover-se apenas usando do tato, sobretudo num espaço bem conhecido, parece a coisa mais fácil do mundo.
Sim. O certo é que o ser humano chegou à lua e manejamos de memória os mundos irreais da "realidade" virtual, mas continuamos incapazes de ler os lábios de quem fala, expressar algo com qualquer tipo de linguagem, exceto a verbal, ou mover-nos tateando ou às escuras.
Extrapolada essa prova aparentemente tão boba à realidade das igrejas evangélicas, cabe pensar de modo razoável que os protestantes estão muito mais próximos dos cegos do que dos surdos.
A razão é óbvia. Historicamente, o protestantismo tendeu a decantar o desejável equilíbrio entre palavra e imagem clamorosamente – nunca, melhor dito –, para o discurso da expressão oral (sermões) e acústica (hinos).
Sim, carregamos a ênfase no verbal em detrimento do visual. Isto é, prima o estímulo da fibra emocional sobre a disposição à análise racional.
Não se irritem comigo nem me entendam mal, por favor, mas essa é também, exatamente, a tática que seguem as seitas.
(Continua)
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Manuel López é jornalista e professor de Ciências da Comunicação. Miembro da Primeira Igreja Batista de Madri.

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