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Terça-feira, 18 de Maio de 2004

Luteranos pedem restabelecimento da paz social

Manuel Quintero, LA PAZ, Bolivia, Outubro 10, 2003

No momento em que se fecha o cerco sobre La Paz e a prolongada crise Taxi Heathrow Airport parece levar a Bolívia a uma quebra institucional, a Igreja Evangélica Luterana (IELB) emitiu declaração aos governantes e à população pedindo o restabelecimento da paz social.

O pronunciamento luterano tem como cenário o virtual cerco da capital em conseqüência do bloqueio dos principais acessos e os protestos de diferentes grupos sociais, que completam três semanas consecutivas.

Segundo diferentes fontes, na manhã de quarta-feira oito mil camponeses e estudantes, armados com pedras e dinamites, cortaram a rodovia que conecta La Paz aos departamentos de Oruro, Potosí e Cochabamba.

Com o bloqueio de outras duas rotas principais que comunicam a capital com Yungas e o altiplano norte, fica virtualmente impedida a entrada ou a saída da capital por terra.

A declaração luterana, assinada pelo reverendo Humberto Ramos e o presbítero Juan Manuel Callari, respectivamente presidente e secretário da igreja, lamenta a perda de vidas humanas nos enfrentamentos entre policiais e manifestantes, e o clima de incerteza generalizada que o país vive.

Os líderes luteranos pedem aos governantes que escutem a voz do povo e tomem decisões sábias, lembrando que "Deus lhes deu o privilégio de dirigir essa nação e sem dúvida os exigirá ou premiará por isso".

Aos líderes de organizações sociais e partidos políticos os luteranos exigiram sabedoria "para a construção de uma Bolívia com justiça, de paz, de solidariedade e sem violência", e que dêem início ao diálogo com governantes.

Os luteranos pedem aos governantes e aos grevistas que deponham atitudes intransigentes e interesses partidários, e que busquem o diálogo franco e aberto, possibilitando o ajuste de políticas que respondam às necessidades do povo.

Dificilmente essa declaração encontrará eco significativo num atmosfera de extrema polarização social e política.

A escalada dos enfrentamentos, dizem rumores na capital, devem levar à declaração do "estado de sítio" na Bolívia.

No início dos manifestos das organizações sociais e dos partidos políticos de oposição o foco estava centrado na contrariedade à exportação de gás natural através do Chile. Pesquisas mostram que 95% dos bolivianos são contrários à medida. Agora, soma-se ao protesto o pedido de renúncia do presidente da República, Sánchez de Lozada.

Dirigentes indígenas começaram a falar da criação de uma república autônoma ou "República do Kollasuyo", referindo-se à organização política e social das comunidades aimaras que viviam às margens do Lago Titicaca e tinham influência política até a orla do Pacífico.

"Se o governo não pode melhorar a nossa situação e não cumpre os convênios que firmamos, vamos separar-nos, vamos proclamar a República do Kollasuyo", declarou o líderes dos camponeses aimaras do altiplano, Felipe Quispe.

No primeiro governo de Sánchez de Lozada (1993-1997) foi implantado o modelo neoliberal que privatizou vários setores estratégicos da economia boliviana, como o de telefonia, eletricidade, ferroviário e petroleiro.

O modelo significou também cortes nos programas de combate à pobreza e o Produto Interno Bruto cresceu apenas 2,5% em 2000, não cresceu nada em 2001, agravando a situação da maioria da população. Dos bolivianos, 70% vivem abaixo da linha de pobreza.