Um espaço para o exercício da liberdade
Edelberto Behs, PORTO ALEGRE, Brasil, Outubro 3, 2003
A liberdade é uma das marcas mais prezadas pelo luteranismo. A escola confessional luterana deveria Taxi Heathrow Airport ser um espaço para o exercício da liberdade, definiu o professor Danilo Streck, do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), no 2. Fórum Ulbra de Teologia sobre a vida e obra de Martim Lutero.
O professor lembrou a dissidência de Lutero com a Igreja, que acabou rendendo-lhe a excomunhão e o apelido, depois dos protesto dos príncipes na Dieta de Espira, em 1529, de "protestante". "Uma instituição luterana deveria, por princípio, primar pelo respeito ao espírito de protesto, sem recorrer a estratégias de silenciamento ou exclusão", defendeu.
O 2. Fórum reuniu, dias 1 e 2 de outubro, teólogos, pastores, professores, estudantes e pesquisadores na capela da Universidade Luterana do Brasil (Ulbra) em Canoas, cidade da Grande Porto Alegre, a 12 km da capital.
O Pró-Reitor Acadêmico de Graduação da Ulbra, professor Nestor Beck, felicitou o diretor da Faculdade de Teologia da instituição, pastor Leopoldo Heimann, por reunir pela primeira vez um evento acadêmico na capela da universidade, construída segundo o modelo da Rosa de Lutero.
O Fórum enfocou o Lutero educador, abordando o seu pensamento educacional e prática pedagógica no contexto de sua época, no contexto da história do luteranismo brasileiro e no contexto nacional das escolas luteranas de hoje.
Danilo entende que o acento da contribuição luterana no contexto brasileiro hoje, tema da conferência que apresentou, é o enfoque do caráter público da educação.
Nos escritos e na prática de Lutero, relatou, há muitas iniciativas que apontam para essa educação pública: a tradução da Bíblia para o alemão, a ampliação do ensino para as meninas, a circulação dos escritos do reformador de forma ampla entre o povo, a preparação dos catecismos e a generalização do conceito de vocação-profissão (Beruf) para todos os campos da atividade humana.
Lutero é associado ao nascimento da educação moderna, que tem na escola a sua espinha dorsal, uma escola para todas as crianças e os jovens. Danilo lamentou que cinco séculos depois de Lutero "ainda estejamos preocupados com a 'Educação para todos' e presenciando, como nunca antes, a transformação da educação num disputado mercado para obtenção de lucros".
Ele lembrou palavras do recém falecido professor Xabier Gorostiaga, jesuíta, que questionava o fato de as escolas e a universidade jesuíta na América Latina formarem profissionais de sucesso em sociedades fracassadas. "Lutero concordaria" com a análise, acrescentou Danilo.
O pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Educação tem a experiência de ter trabalhado em instituições luterana, presbiteriana, metodista e jesuíta.
Embora confessionais, as escolas vinculadas a denominações não são iguais, porque, explicou Danilo, a confessionalidade funciona como uma espécie de filtro, que deixa passar a luz emprestando-lhe determinados matizes. As confissões "não são um fim em si mesmas", e se não são suficientemente permeáveis ou transparentes para que se veja além e através delas "elas perdem sua razão de ser", disse.
Daí que, do ponto de vista cristão, "não há porque não sonhar com uma educação em que convivem a liberdade luterana, o 'coração aquecido' wesleyano, o engajamento e o despojamento lassalista, o discernimento jesuítico, a sobriedade calvinista, o entusiasmo pentecostal. E deveria haver lugar para a irreverência do preto velho do terreiro da umbanda", defendeu.
Lutero promoveu uma reforma também na educação, ao mudar o sistema de ensino-aprendizagem, transformando "o inferno e o purgatório" das escolas paroquiais, que torturavam os alunos com declinações e conjugações, adotando uma pedagogia lúdica.
Danilo destacou, contudo, que muitas escolas continuam, hoje, aquele "lugar de tortura" para alunos. "Se as escolas luteranas puderem se transformar em sacramentos da vida em abundância anunciada em palavras ações por aquele - Cristo - a quem Lutero apontava desde o seu púlpito, então elas estarão cumprindo o seu papel. Se não fizerem isso, estarão entre as obras mortas", concluiu.
O Pró-Reitor Acadêmico de Graduação da Ulbra lembrou que Lutero defendeu, no seu tempo, a reforma da universidade, que era dominada pelo escolasticismo. Mudando a universidade seria possível mudar a sociedade, concebia o reformador.
Otimista, Beck disse que se o Curso de Direito da Ulbra, um dos maiores do Brasil em número de estudantes, conseguir inundar o Congresso brasileiro com bacharéis escolados no pensamento ético e social de Lutero "acabará da noite para o dia o regime de exclusão no país".
Lutero também denunciou o conhecimento que não serve para nada, que não traz benefícios à sociedade. "Que seja excluído dos nossos currículos", definiu Beck.
O professor mencionou o acervo mínimo essencial da biblioteca preconizada pelo reformador: a Bíblia no original e em várias traduções; os comentaristas dos livros das Sagradas Escrituras; as obras dos pais da Igreja e as grandes obras do estudo da natureza.
Beck proferiu conferência sobre "O pensamento educacional de Lutero e a prática pedagógica no contexto de sua época". O professor Paulo Buss, da Faculdade de Teologia da Ulbra, enfocou a história do luteranismo brasileiro na conferência que apresentou no 2. Fórum de Teologia.
Buss fez um "sobrevôo histórico" da trajetória de escolas comunitárias ligadas à Igreja Evangélica Luterana do Brasil (IELB) e à Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB). Ele entende que a prática pedagógica das escolas luteranas reflete o pensamento educacional de Lutero.
Mesmo que não exista levantamento similar no Brasil, Buss relatou pesquisa realizada nos Estados Unidos, que procurou verificar o impacto da educação paroquial luterana na vida dos que passaram por tais escolas. O estudo constatou que essas pessoas tinham maior conhecimento da Bíblia, uma afirmação mais consistente de crenças e valores cristãos, uma maior consistência em práticas de piedade pessoal e menor ansiedade sobre a fé pessoal e a relação com Deus.
A pesquisa também levantou problemas, como o autoritarismo masculino e a necessidade de estruturas familiares inalteradas, e menor desejo de envolvimento social da igreja.
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