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Terça-feira, 18 de Maio de 2004

Martín Ocaña e Harold Segura(direita) analisaram tema da graça [Foto:CLAI]
Martín Ocaña e Harold Segura(direita) analisaram tema da graça [Foto:CLAI]

Teólogos falam da graça na América Latina

Manuel Quintero, QUITO, Ecuador, Setembro 30, 2003

"É possível falar da graça num continente tão cheio de desgraças como a América Latina?" Taxi Heathrow Airport A pergunta motivou o debate de 15 teólogos e teólogas de nove países do continente e do Canadá, que se reuniram na capital equatoriana dias 26 e 27 de setembro.

Juan Stam, biblista de origem norte-americana e nacionalizado na Costa Rica, ofereceu uma resposta afirmativa a partir da análise de textos bíblicos. "A criação é graça. A graça de Deus para nós não começou com o nascimento de Jesus, nem com a sua morte na cruz. Começou com a criação do mundo", enfatizou Stam.

A graça de Deus tem um componente estético essencial, porque "a beleza também é graça" e "a criação foi a obra estética de um grande artista", disse.

Se a graça de Deus abunda e se manifesta no continente numa variedade de formas, "não temos falado dela com a devida pertinência e relevância para o contexto de desgraças que acompanham a América Latina", frisou o teólogo batista Harold Segura, da Colômbia.

Segura é o responsável pela Relações Eclesiásticas da Visão Mundial na América Latina. As igrejas evangélicas, sustentou, pregaram uma graça "de cunho individualista e espiritualista que é preciso revisar", assinalou.

Para pregar graça no continente é necessário mais do que modificar a forma do discurso, enquadrá-lo numa teologia que faça justiça à mensagem mais completa da Escritura, disse.

Em meio à crescente pobreza e marginalização social, a América Latina converteu-se num caldo de cultivo favorável para a proliferação de um discurso teológico que não oferece a graça, mas a lei, apontou o teólogo reformado peruano Martín Ocaña.

Um discurso teológico que, na opinião dele, "trai a Deus e sua criação" e nega a essência da doutrina da graça. Essa doutrina entende que "Deus está livremente a favor dos seres humanos para salvá-los e conduzi-los a uma vida plena".

Tomando como ponto de partida a dramática realidade latino-americana, o teólogo reformado cubano Reinerio Arce entrou numa discussão filosófica e teológica sobre o mal e o sofrimento. Ele disse que, frente às desgraças deste mundo, as Escrituras mostram "o sofrimento de Deus".

"Deus sofre junto ao ser humano, ao seu povo e junto a toda sua criação. E na paixão de Jesus revela-se a paixão de Deus. A dor do Deus amoroso na cruz de Cristo revela-se a todos os seres humanos que estão sofrendo pelas desgraças deste mundo, e esse sofrimento divino traduz-se em solidariedade e salvação e, portanto, em esperança", destacou.

Segundo Arce, "aquele que reconhece essa comunidade divina com o sofrimento humano sente que Deus não está impassível no céu, mas que de uma maneira particular e misteriosa é um Deus humano, que se une ao grito de dor e grita também com e pelo sofredor".

A graça de Deus revela a sua incondicionalidade, o seu amor e infinita misericórdia, e "nos convoca a restaurar, libertar e não a glorificar o sacrifício e a dor, como se tomar a cruz significasse sofrer em passividade como Cristo sofreu", disse a teóloga pentecostal chilena Elizabeth Salazar.

Diante do desespero e o sentimento de impotência "surgem as redes de vida, redes de solidariedade, redes que nos fazem atuar e entregar por pura graça o que se gestou pela graça de Deus", afirmou.

Uma solidariedade que, entende Stam, "é outra graça dada por Deus". O compartilhar com os necessitados é uma graça que o Espírito outorga no Corpo de Cristo. A graça de Deus revela-se na generosidade cristã com os pobres. O amor aos pobres é graça em ação, e onde não está presente o amor eficaz para os necessitados, não está presente a graça de Deus", assinalou.

A tarefa de pregar a graça terá que superar, apontou Segura, uma visão antropológica reducionista que concebe o ser humano quase que de maneira exclusiva, como um ser culpado e sujo à vista de Deus, porque nessa visão está ausente "a multidimensionalidade do ser humano e a forma como a graça de Deus opera em todas as esferas de sua existência real".

Necessitará, ainda, de uma espiritualidade que é "viva para a vida e fé colocada em prática em todos os espaços do cotidiano, no qual a graça recebida e experimentada se aplica e se projeta para as desgraças que rondam o nosso viver diário".

Essa foi a segunda reunião da chamada Comissão Teológica Latino-Americana (CTL). A primeira foi realizada em Matanzas, Cuba, em outubro de 2002.

A CTL é um esforço conjunto da Fraternidade Teológica Latino-Americana (FTL), da Comunidade de Educação Teológica Ecumênica Latino-Americana e Caribenha (Cetela), da Visão Mundial, da Associação Ecumênica de Teólogos do Terceiro Mundo (Asett) e do Conselho Latino-Americano de Igrejas (Clai).