
Salvador Allende e a religião
Víctor Rey, SANTIAGO, Chile, Setembro 10, 2003
"Colocado num momento decisivo histórico, pagarei com a minha vida a lealdade do povo. E Taxi Heathrow Airport digo-lhes que tenho a certeza de que a semente que entregamos à consciência digna de milhares e milhares de chilenos não poderá ser segada definitivamente. Têm a força, poderão avassalar-nos, mas não se detêm os processo sociais nem com o crime nem com a força. A história é nossa e a fazem os povos". Do último discurso de Salvador Allende. 9h30min. La Moneda, 11 de setembro de 1973.
Em 2003 completam-se 30 anos da morte trágica do presidente constitucional do Chile, Dr. Salvador Allende Gossens, primeiro socialista eleito por sufrágio eleitoral. Allende era conhecido pelo seu ateísmo, sua militância marxista e adesão à maçonaria. Por isso, pode parecer surpreendente o título deste artigo e seu conteúdo.
Para se ter uma melhor compreensão dos fatos religiosos ocorridos antes do golpe de estado de 11 de setembro de 1973, quando o presidente Salvador Allende foi derrubado, torna-se imprescindível uma descrição do período prévio, que abarca desde 1925 - ano da promulgação da nova Constituição política - até os dias que antecederam a sangrenta derrocada.
Para isso remetemos às palavras do sociólogo Humberto Lagos:
"Obviamente, esse tempo foi marcado pela radicalização das tensões entre a Igreja Católica Romana e as pujantes manifestações das diversas vertentes protestantes. O liberalismo, politicamente manifestado no Partido Radical e na Maçonaria, atrai fortemente líderes e fiéis protestantes, que confundem ou assimilam seu laico anticlericalismo ao próprio anticatolicismo, numa aliança que contesta em todas as frentes possíveis o conservadorismo religioso da igreja majoritária, que, por sua vez, se expressa politicamente no Partido Conservador e depois na Falange Nacional, que deu lugar ao Partido Democrata Cristão.
"Nesse período histórico confirma-se o fenômeno de interpretação ideológica entre a maçonaria - com suas contribuições laicas e anticlericais - e o ideário protestante, que é lido pelos fiéis evangélicos com um só ethos cultural.
"A laicização socialista mostra-se uma oferta atrativa para os crentes protestantes, que vêem na aliança com o liberalismo a possibilidade histórica de derrotar a inimiga Igreja Católica Romana.
"Até os anos da II Guerra Mundial, e em meio a uma sistemática culpabilidade da Igreja Católica como responsável de contribuir para a miséria continental, eram as ideologias progressistas, esquerdizantes e liberais as que despertavam simpatias nos setores evangélicos.
"O marxismo, como ideologia com auditório em setores populares, começa a preocupar as classes conservadoras e a Igreja Católica. É inegável que durante o período do pós-guerra surge um forte movimento esquerdista na América Latina, que acusava a hierarquia da igreja majoritária de não ter interesse em romper seu 'casamento' com as forças políticas reacionárias provenientes de projetos ditatoriais". (Humberto Lagos. Crise de esperança. Santiago do Chile : Editorial Lar, 1988, páginas 62 e 63).
Não obstante, as simpatias protestantes por projetos comuns a grupos de ideologia marxista começaram desde os anos 50 do século passado.
Os missionários norte-americanos influenciaram para introduzir como prática o apoliticismo de igrejas e fiéis evangélicos. Isso, imperceptivelmente, vai se reforçando com um sentimento anticomunista, produto de uma modalidade ideológica conservadora útil à reprodução da ideologia religiosa do capitalismo.
As contradições das práticas sociais evangélicas chegam ao seu momento culminante quando alguns líderes e igrejas assinam, no período do projeto político autoritário, em dezembro de 1974, sua adesão incondicional e acrítica à ditadura encabeçada pelo general Augusto Pinochet.
Com a ascensão presidencial do Dr. Salvador Allende, governante eleito popular e democraticamente a 4 de setembro de 1970, iniciou-se uma experiência nova para o universo religioso chileno.
Os fatos falam de um presidente respeitador das liberdades de consciência e religiosa, que na prática se traduziu na transformação do Te Deum católico tradicional em ecumênico, celebrativo da tomada do poder político democrático por um novo mandatário e dos fatos memoráveis independentistas históricos.
Na expressa petição do mencionado presidente às igrejas cristãs para que dessem apoio espiritual e cerimonial aos delegados internacionais que o requeriam entre os participantes da Terceira Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento e o Comércio (UNCTAD III), que se realizou em Santiago do Chile em 1971.
O ateísmo de Salvador Allende não era em absoluto contraditório ao seu confessado humanismo que, nas situações recém mencionadas, tinha claras e contundentes expressões.
Nos instantes de sua tomada de posse presidencial, o Dr. Allende recebeu das mãos do cardeal Raúl Silva Henriquez um exemplar da Bíblia de Jerusalém.
Ele manifestou naquele momento:
"Reli esse livro mais vezes do que você acredita. Não gosto dos crentes que dão à Bíblia uma categoria mágica, como se ali estivesse a solução até para as dores do dente do siso. Sempre me acerquei do grande livro com a liberdade de pensamento de um ateu, disposto a não ver mais do que possa ler e entender em qualquer livro.
"E reconheço que nele encontrei profundos ensinamentos, elevada poesia, apaixonantes novelas, fragmentos da mais alta literatura, filosofia eterna, sabedoria sem par. Talvez isso poderia explicar porque a Bíblia é a síntese da sabedoria e da história milenária dos povos da antigüidade. Ali estão seus mitos, seus personagens amados, seus grandes anseios, suas idéias políticas, sua realidade, sua rebelião, seus sofrimentos e suas alegrias..." (Revista "Pensamiento Cristiano", No 70, Córdoba, Argentina, junho de 1971, páginas 118-119).
No Te Deum Ecumênico, o cardeal Silva Henríquez fez, entre outras, referências em sua homilia:
"Este momento de oração inscreve-se numa antiga tradição religiosa; mas corrobora, ao mesmo tempo, tradições patrióticas sem preço. Tem um caráter simbólico e de garantia de respeito: o respeito dos governantes por todas as formas religiosas; o respeito das igrejas pela legítima autoridade dos governantes; o respeito recíproco entre múltiplas confissões religiosas.
"É justo, então, que nos congreguemos para uma ação de graça, homens que recebem uma tarefa de libertação de seus irmãos; homens que sabem respeitar, porque se sentem respeitados, não podem menos do que dar graças, porque tudo isso é um privilégio. (Revista "Pensamiento Cristiano, no 70, Córdoba, Argentina, junho de 1971, páginas 118-119).
No dia 5 de setembro de 1970, Salvador Allende concedeu entrevista coletiva aos correspondentes estrangeiros que assistiram a transmissão do mandato presidencial. Entre os participantes estava o padre David Turaldo, secretário geral do Centro de Documentação João XXIII, teólogo e escritor italiano.
Turaldo afirmou que lera com muito prazer a declaração do presidente Allende sobre liberdade religiosa que existe no Chile, como também o discurso do cardeal por ocasião do Te Deum Ecumênico, o qual era um belíssimo gesto litúrgico aberto à justiça e à paz. Depois fez votos para que o progresso de todo o povo chileno continuasse e se aprofundasse.
A resposta de Allende foi a seguinte:
"Eu posso assinalar que um dos fatos mais significativos, mas transcendentes, que mais impressionou os visitantes e as missões que vieram à transmissão do mandato, foi precisamente o Te Deum Ecumênico realizado na catedral chilena.
"Te Deum Ecumênico que eu solicitei, e o fiz porque sei que a maioria do povo chileno é católica e eu tenho a obrigação de respeitar seu foro íntimo, assim como sei que eles respeitam o meu.
"As palavras do cardeal da Igreja chilena demonstram como nossa igreja se coloca na luta dos homens frente aos necessitados e humildes, tornando realidade o evangelho de Cristo.
"Posso afirmar-lhe, com a atitude de toda uma vida e não só da minha pessoal, mas dos partidos que conformam a vanguarda do movimento popular, que nunca incursionamos por um dogmatismo intransigente no direito de cada qual de ter a crença que mais tenha a ver com o seu ser íntimo, e que isso manteremos.
"Além disso, creio que esse entendimento se fará cada vez mais profundo, porque as distintas religiões, fundamentalmente a Igreja chilena em seus documentos, emanados de altas hierarquias, cada vez com mais decisão e com mais clareza se aproximam do respeitável pensamento de João, o Bom". (Liberdade religiosa. Coletiva de imprensa, 5 de setembro de 1970. Salvador Allende no umbral do século XXI. Frida Mokad, Cidade do México : Plaza Janés Editores, página 104.)
A ideologia de Allende herdou os ideais ilustrados na versão maçônica, que no Chile são um filamento de continuidade desde os próceres da independência e da república autoritária, na primeira metade do século XIX, até o Partido Radical, na segunda.
Ou seja, a confiança na razão e na educação; a valorização da igualdade e na lei; e, finalmente, uma concepção humanista da política que desemboca tanto no nível individual como no nível social.
Ela inclui e determina a vida individual do militante na, por assim dizer, grei política, orientando-a para o desenho de formas de vida, isto é, de sistemas econômicos, políticos e legais, cujo primeiro desafio está claro: melhorar as condições de quem menos benefícios obtêm do sistema.
Nesse sentido, os ancestrais de tal concepção da política podem seguir-se na tradição ocidental até a mesma concepção judaico-cristã da vida humana correta ou boa. Porque na visão bíblica se articula pela primeira vez a tese segundo a qual, num sentido ético, os seres humanos são todos iguais, e o são, em última instância, porque são todos criação do único Deus.
"Amarás a teu próximo como a ti mesmo", ordena o Antigo Testamento, acrescentando "porque estrangeiro foste no Egito". Visto dessa maneira, a idéia associada com a ilustração e o liberalismo de um Povo Eleitor (isto é, um povo de cujo consentimento depende a legitimidade dos governos) é um distante descendente do conceito bíblico de Povo Eleito (isto é, um povo cujos membros foram eleitos por igual, para viver segundo os mandamento divinos).
O entendimento atual do conceito de revolução descende daquele de libertação da escravidão, da opressão, cuja primeira representação épica no Ocidente é a história do êxodo do Egito.
Assim, Allende, como herdeiro da explicação secular da concepção judaico-cristã, pode ser descrito também como o último ilustrado da política chilena.
Resulta paradoxal lembrar que ele foi um ateu, que ajudou a promover a unidade dos cristãos num período tão crítico da história do Chile. Como tantas vezes sucedeu na vida da Igreja, Deus faz uso de sua soberania e usa para seus propósitos inclusive não-crentes. Por isso podemos dizer que Allende foi um líder que contribuiu a diminuir a distância entre a utopia e a realidade.
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Víctor Rey é pastor batista chileno, dirigente da Fraternidade Teológica Latino-Americana (FTL) e responsável pelas Relações Eclesiásticas da Visão Mundial - Chile.
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