Justiça midiática
Carlos Ramos, QUITO, Ecuador, Setembro 3, 2003
Empresa de pesquisa da capital acaba de publicar o resultado de pesquisa de opinião que Taxi Heathrow Airport mediu a popularidade, credibilidade e gestão positiva de personagens políticas que governam vários setores do Estado.
O levantamento também mostrou as instituições que, aos olhos dos equatorianos que vivem em Quito e em Guyaquil, as duas cidades mais povoadas do país, têm maior confiança e credibilidade junto ao povo.
O resultado mostra que 12% têm confiança na Igreja (para efeitos desse trabalho e em muitos setores da sociedade a Igreja é identificada exclusivamente como Igreja Católica). A instituição aparece em quinto e último lugar entre as mencionadas pela população.
Em agosto de 2003, 14% do universo pesquisado confiavam nos meios de comunicação, 13% nas forças armadas, 12% nos municípios, e também 12% na comissão anticorrupção, o mesmo percentual dado à igreja.
Comparando as opiniões de cidadãos de Quito e de Guyaquil entre janeiro e agosto deste ano, as mudanças são significativas. Em janeiro, a igreja apareceu em primeiro lugar, com 38% da confiança da população, vindo, em seguida, as forças armadas, com 13%. Os meios de comunicação ocuparam a terceira posição, com 8%, a comissão anticorrupção, com 5%, e, em último lugar, os municípios, com 4%.
Como se entende essa queda da igreja, de 26% em apenas seis meses? A explicação é que em março surgiu o escândalo envolvendo o padre Carlos Flores em vários delitos, entre eles o de enriquecimento ilícito, pois teria acumulado fortuna no exercício do cargo de administrador de aduanas de Quito, entre 2000 e 2002, durante o governo do presidente da República e militante católico Gustavo Noboa.
Flores está foragido e vive nos Estados Unidos. Não se sabe com certeza se ele é culpado ou não; no entanto, o grande desdobramento que as mídias deram ao caso levou o cidadão comum a convencer-se de que o padre e seus superiores eram culpados. O padre, por ter roubado dinheiro; e a hierarquia por ter permitido que ele exercesse uma função pública exposta ao comentário negativo.
O caso motiva várias reflexões. A primeira, a inconveniência de misturar o exercício da função sacerdotal ou pastoral com a função pública e política. A segunda, a falta de sentido comum e disciplina de parte da hierarquia, ao permitir o exercício de uma função tão delicada a um sacerdote. Em terceiro lugar, é falso supor que uma pessoa apenas possa moralizar ambientes públicos que tendem à corrupção.
A lição maior que fica é o que podemos denominar de "justiça midiática", isto é, a tremenda capacidade das mídias modernas de apresentar um caso sob sua própria percepção e levar a população a julgar ou condenar os envolvidos, sejam culpados ou não.
Por último, o caso convida a refletir sobre a enorme importância que assume a conduta individual, uma vez que com ela podemos prestigiar nossa comunidade de fé ou causar-lhe um grande mal, que pode tornar-se irreparável. Aos olhos dos demais o nosso testemunho conta, e por ele falam bem do evangelho ou o criticam para o mal.

Portada
Início