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Domingo, 14 de Setembro de 2003

Quando a compaixão sai do papel e entra na vida

LIMA, Perú, Agosto 27, 2003

"Os dois anos em que atuei como membro da Comissão da Verdade e Reconciliação (CVR) Taxi Heathrow Airport mudaram a minha vida, transformando-a totalmente", disse Humberto Lay, pastor da Igreja Bíblica Emmanuel e líder da Fraternidade Internacional de Pastores Cristãos (Fipac), durante culto do Movimento Nacional de Oração, oficiado terça à noite na Catedral da Fé, em Lima.

Antes de participar da CVR, "a compaixão para mim era teoria. Hoje não. Não consegui segurar as lágrimas ao escutar tantos testemunhos dilaceradores, e sequer imaginava que aqueles relatos pudessem acontecer em nosso país em pleno século XX", declarou Lay na homilia.

No culto, cristão oraram pela apresentação final do relatório da CVR, que será entregue ao presidente Alejandro Toledo. A celebração foi encabeçada pelo presidente executivo da Rádio do Pacífico e do Movimento Nacional de Oração, Pedro Ferreira.

Na homilia, Lay mencionou que ao ser nomeado pelo presidente Toledo para integrar a CVR alguns crentes perguntaram como isso era possível, uma vez que nunca se preocupou com a defesa dos direitos humanos.

"Esses irmãos tinham razão, porque eu, como muitos do povo evangélico, não tinha me preocupado com a violação dos direitos humanos durante a luta antisubversiva de 1980 a 2000, período que a CVR recebeu a tarefa de investigar".

"Esse é um pecado que temos que confessar e pedir perdão a Deus por nossa indiferença", admitiu o pregador. Hoje, analistas reconhecem o papel importante que igrejas evangélicas tiveram na derrota do grupo extremista Sendero Luminoso, e isso está consignado no relatório da CVR, garantiu.

Lay criticou os políticos e jornalistas que se opõem à divulgação do relatório. "É puro egoísmo. Não se pode passar uma página de um livro sem conhecer a anterior", comparou.

O pregador lembrou palavras de Jesus em várias passagens das Sagradas Escrituras, em que ele se compadeceu de pessoas. Uma característica de Deus é a compaixão, ensinou. "Esse  é o nosso pecado, que não temos tido compaixão para com aqueles que tanto sofreram. Mas nunca é tarde para retificá-lo", apontou.

Deus está dando uma nova oportunidade para a evangelização em nosso país, através do exercício da compaixão, atendendo os desgarrados, os marginalizados. Lay disse que a CVR está propondo que se conheça a verdade, e ao conhecê-la se faça justiça, punitiva para os culpados e reparatória para os inocentes. Assim se poderá pensar em perdão e reconciliação.

Perdão e reconciliação não são novidade, nem invenção humana, mas são conceitos de Deus. "Deus está nos colocando no cenário público para que atuemos e as pessoas vejam em nós verdade, justiça, perdão e reconciliação", afirmou.

O Peru pode ser reconstruído sobre os escombros do passado. Isso é o que a CVR está tratando de fazer. "Se queremos um Peru para Cristo, teremos que remover os escombros, de nossas próprias vidas e de nosso país. Quando há muito ódio, rancor, feridas, é preciso ajudar para superá-las. A Igreja precisa se conscientizar dos problemas da violência e da necessidade de mudanças produndas para que não volte a se repetir no nosso país o terrível período de morte e terror", concluiu Lay.