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Sexta-feira, 5 de Novembro de 2004

Doutor Oneide Bobsin
Doutor Oneide Bobsin

Exotismo religioso

Oneide Bobsin, SAO LEOPOLDO, Brasil, Agosto 19, 2003

“Estás cansado da  tua igreja? Organize  a tua!”

Esta máxima de um líder evangélico norte-americano Taxi Heathrow Airport é uma das chaves explicativas para a proliferação  de igrejas evangélicas e grupos religiosos no Brasil e, certamente, em nosso continente latino-americano.

 Segundo a legislação vigente no Brasil, é  menos arriscado abrir uma nova igreja do que uma pequena empresa. Bastam  8 pessoas para formar uma diretoria, elaborar uma ata de fundação e, em seguida, registrá-la num cartório. Desta forma, a nova igreja adquire o Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas.

 Abre-se, assim,  o campo religioso à  lógica liberal de mercado, aprofundando a privatização da fé e o empreendedorismo religioso.

 A confirmação desta tese estampa-se na mídia evangélica e secular. A revista Eclésia, por exemplo, recentemente fez uma  relação de nomes de novas igrejas evangélicas. Como poderemos ver, os nomes demonstram a religião sob a influência de interesses bem específicos e imediatos de líderes e grupos de pessoas.

Mais do que oportunizar risos, os nomes exóticos revelam o espírito individualista da época. Seguem alguns nomes: Congregação Anti-Blasfêmias, Igreja Evangélica Abominação à Vida Torta e Comunidade do Coração Reciclado.

O contexto e as lides dos primeiros discípulos/pescadores de Jesus são fontes de inspiração para criar novas igrejas:  Igreja Barco da Salvação, Igreja Evangélica a Última Embarcação para Cristo e Associação Evangélica Fiel Até Debaixo D’Água.

 Também há  lugar para o auto-louvor:  Cruzada Evangélica do Pastor Waldevino Coelho, a Sumidade, e Igreja Evangélica Pentecostal do Pastor Sassá

O fogo do Espírito também motiva a criação de   igrejas, como as que seguem:  Igreja Automotiva do Fogo Sagrado,  Igreja Batista Incêndio de Bênçãos, Igreja Explosão da Fé e Igreja Pentecostal Fogo Azul. 

 Se os nomes exóticos nos fazem rir, algumas práticas nos levam ao choro. Pouco interessada em informar, a mídia secular se esbalda em anunciar as práticas dos novos evangélicos.

Citemos um exemplo. Em um grande centro urbano,  foi criada a Clínica de Exorcismo. Na primeira sessão, o paciente endemoneado é submetido a um interrogatório. Depois, a pessoa passa por choques elétricos e palmatórias. Se os demônios não abandonarem a pessoa, ela  vai para o Pau Santo de Arara. Resistindo o demônio, passa-se o Tratamento Intensivo de Terceiro Grau, que consiste em eliminar a pessoa possessa.

Notícias sobre espancamento de crianças em centros religiosos que praticam o exorcismo atraem o leitor sedento de tragédias e de emoções. Nesse caso, o líder religioso não soube o limite entre religião e loucura, batendo a cabeça da criança contra a parede até ela desmaiar, sob os olhares da mãe. Uma semana depois, a criança morreu.

Vemos, portanto, que sob o preceito da liberdade religiosa, garantida pela Constituição no Brasil, líderes religiosos submetem pessoas e grupos aos seus interesses particulares.

Sem a pretensão de separar joio e trigo,  urge que o movimento ecumênico  ajude aos Estados Nacionais a elaborarem critérios éticos e legais para proteger as pessoas da sanha de certos líderes e grupos religiosos. O novo Código Civil brasileiro já deu alguns passos neste sentido, ao responsabilizar administrativamente líderes das organizações religiosas. Mas é preciso dar mais passos.

 Mesmo que pareça  hilariante,  atrevo-me a sugerir a criação de um Serviço de Proteção ao Consumidor de Bens Religiosos. Afinal, entre  a liberdade religiosa e  a disputa mercadológica das almas deve haver limites ecumênicos e estatais/públicos.

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Oneide Bobsin. Pastor da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil e professor de Ciências das Religiões da Escola Superior de Teologia de São Leopoldo/RS/Brasil.


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