Divulgação do informe da Comissão da Verdade gera expectativa
Hugo Lévano, LIMA, Perú, Agosto 15, 2003
Diante da expectativa da publicação do informe final da Comissão da Verdade e Reconciliação (CVR), o líder do Partido Aprista e ex-presidente peruano Alan García declarou, ontem, que, "se teve algum excesso" das Forças Armadas durante a luta anti-subversiva, "a culpa cabe ao Sendero Luminoso, que desencadeou esse banho de sangue".
García soma-se às vozes dos que questionam o anúncio de que a CVR, encarregada pelo governo há dois para investigar as violações dos direitos humanos no período 1980-2000, apresentará as conclusões do seu trabalho no próximo dia 28 de agosto.
O informe abarca os assassinatos em massa, os desaparecimentos, as execuções extrajudiciais e outros excessos cometidos no período, tanto pelos grupos Sendero Luminoso e o Movimento Revolucionário Túpac Amaru (MRTA), como pelas forças militares e páramilitares durante os governos de Alan García (1980-1985) e Fernando Belaúnde (1985-1990), mas principalmente sob o regime de Alberto Fujimori (1990-2000).
O presidente da CVR, Salomón Lerner, disse, ao apresentar exposição fotográfica no dia 4 de agosto enfocando tais excessos, denominada "Yuyanapaq" (que significa "para não esquecer", em quechua),que vão apresentar o informe com a convicção de que "sem verdade, sem justiça e sem grandes transformações públicas e sociais que conduzam à reconciliação, a democracia distará dessa realidade genuína que todos os peruanos merecem".
Alguns observadores asseguram que esse não é um momento oportuno para expor a verdade, anotou Lerner. Outros afirmam que o informe deve ser arquivado, porque mesmo numa democracia a cidadania tem o direito de conhecer todos os assuntos que lhe concernem.
"Mais de um político questiona o nosso informe sob o argumento de que ele foi elaborado sobre a base de testemunhos de duvidosa credibilidade. As mais de 200 fotografias que aqui reunimos, de rostos e espíritos martirizados, imagens de abuso e humilhação, expressam a realidade de nossa nação com mais fidelidade e urgência do que as imagens arqueológicas dos folhetos turísticos", afirmou.
Recentemente, a imprensa deu grande publicidade a uma denúncia sobre a entrevista que Javier Ciurlizza, então assessor do ministro da Justiça Diego García Sayám sustentou, em dezembro de 2000, com alguns senderistas presos e que tratou sobre as condições de sua prisão. Como Ciurlizza é o secretário executivo da CVR, há quem alegue que todo o informe da comissão é pró-Sendero.
Outro questionamento à CVR partiu do cardeal e arcebispo de Lima, Juan Luis Cipriani, amigo declarado do ex-presidente Fujimori. O prelado disse, em entrevista a uma emissora de rádio no mês passado, que a CVR "deveria ter uma atuação mais ponderada. Não vejo muito claro no país o ânimo do perdão, mas uma busca permanente de culpados, escavando o passado, maltratando dignidade e honra de todas as cores".
Outro crítico argumentou que a CVR é o congressista Rafael Rey, membro da Opus Dei. O general Alberto Arciniegas, que foi comandante da área de emergência da selva amazônica em 1989, disse que "toda guerra tem excessos, mas não foi um projeto genocida. Isso aconteceu como reação e por falta de experiência", declarou.
O informe final da CVR deverá ter nove volumes, um compêndio e cinco fascículos, e denunciará, perante o Ministério Público, 40 casos de violação aos direitos humanos com os nomes dos responsáveis.

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