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Sexta-feira, 12 de Setembro de 2003

Ativistas gays queimam documento do Vaticano

SALVADOR, Brasil, Agosto 5, 2003

Representantes de grupos homossexuais da Bahia queimaram, ontem à tarde, em Salvadore e em frente Taxi Heathrow Airport à Catedral Basílica de Salvador, uma cópia do documento que a Congregação para a Doutrina da Fé, do Vaticano, divulgou na semana passada a respeito da união de homossexuais.

O protesto, que reuniu cerca de 30 ativistas, foi "um ritual de purificação, como ocorria com as fogueiras da Inquisição", explicou um dos líderes do Grupo Gay da Bahia, o antropólogo e escritor Luiz Mott, 57 anos. O grupo também incentivou católicos inconformados com a posição do Vaticano a pedirem o "desbatismo".

No Rio de Janeiro, ativistas gays promoveram, no domingo, o "beijaço" – a troca de beijos entre casais gays – em frente à Igreja Nossa Senhora da Paz, em Ipanema. O presidente do Grupo Arco-Íris, Cláudio Nascimento, colocou debaixo da porta da igreja documento no qual renega o seu batismo. O protesto reuniu cerca de 50 ativistas gays, que distribuíram 5 mil preservativos.

Em Porto Alegre, punks e homossexuais promoveram protesto, domingo, no Parque Farroupilha, que resultou em tumulto. Os manifestantes desenharam uma suástica em bandeira do Brasil e a queimaram. O protesto marcou o repúdio aos ataques dos grupos de skinheads contra punks e homossexuais.

Pesquisa interativa promovida pelo Jornal do Brasil Online, do Rio, indagando se a união civil de homossexuais devesse ser legitimada, mostrou que 53% dos internautas que a responderam são contra a legalização e 47% a favor.

O documento da Congregação para a Doutrina da Fé, presidida pelo cardeal alemão Joseph Ratzinger, classifica os atos homossexuais como uma "anomalia", um "pecado gravemente contrário à castidade".

O documento parte da concepção de que o matrimônio foi fundado pelo próprio Criador. "Nenhuma ideologia pode cancelar do espírito humano a certeza de que só existe matrimônio entre duas pessoas de sexo diferente", que se "aperfeiçoam mutuamente para colaborar com Deus na geração e educação de novas vidas", afirma o documento.

Segundo o texto, "não existe nenhum fundamento para equiparar ou estabelecer analogias, mesmo remotas, entre as uniões homossexuais e o plano de Deus sobre o matrimônio e a família. O matrimônio é santo, ao passo que as relações homossexuais estão em contraste com a lei moral natural". O texto arrola que os atos homossexuais "fecham o ato sexual ao dom da vida".

O documento admite que, seguindo os ensinamento da igreja, homens e mulheres com tendências homossexuais "devem ser acolhidas com respeito, compaixão e delicadeza. Deve evitar-se, para com eles, qualquer atitude de injusta discriminação", como dispõe o Catecismo da Igreja Católica.

Mas o respeito que a igreja tem para com os homossexuais "não pode levar, de modo nenhum, à aprovação do comportamento homossexual ou ao reconhecimento legal das uniões homossexuais", alerta.

O documento destaca que as uniões homossexuais "não desempenham, nem mesmo em sentido analógico remoto, as funções pelas quais o matrimônio e a família merecem um reconhecimento específico e qualificado. Há, pelo contrário, razões válidas para afirmar que tais uniões são nocivas a um reto progresso da sociedade humana, sobretudo se aumentar a sua efetiva incidência sobre o tecido social".

A Congregação para a Doutrina da Fé adverte de modo especial os políticos católicos, que têm obrigação moral de se opor ao reconhecimento legal das uniões homossexuais. Em entrevista para a rádio CBN, o teólogo e ex-frade franciscano Leonardo Boff criticou a postura "ultrapassada da igreja hierárquica, que ainda vive o sonho medieval de ter a hegemonia moral sobre toda a humanidade", de querer opinar sobre a natureza das relações humanas.