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Domingo, 7 de Setembro de 2003

Conferência defende ética que garanta uma casa comum à humanidade

Paulo Hebmüller, SÂO PAULO, Brasil, Agosto 1, 2003

A bênção cantada pelo cardeal dom Paulo Evaristo Arns, seguida da oração do Pai Nosso Taxi Heathrow Airport em conjunto e de mãos dadas pelas centenas de participantes, deram o tom de mística e celebração ao encerramento da Conferência sobre o Cristianismo na América Latina e no Caribe, que se realizou de 28 de julho até esta sexta-feira, na Faculdade Batista e na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

O encontro foi convocado por:  Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (Cehila), PUC-SP, Ameríndia, Centro Ecumênico de Educação Popular (Cesep) e Sociedade de Teologia e Ciências da Religião (Soter) e contou com o apoio e contribuição de outras 40 organizações e instituições que abarcaram desde o mundo acadêmico até  movimentos sociais. Participaram das plenárias e mesas redondas do evento 740 pessoas, vindas de 31 países das Américas, Ásia e Europa.

Na sessão de encerramento, representantes da organização pediram que os presentes continuem em contato e utilizem o endereço eletrônico da conferência para centralizar o envio de informações, avaliações, reportagens e artigos que se seguirão ao encontro.

Os jovens Pablo Ramírez Obando, do México, e Daniela Prandini, do Brasil, leram uma mensagem em que expressam o agradecimento e reconhecimento das novas gerações pelo legado de luta, pensamento teológico e exemplos que recebem dos mais velhos. "Redescobrindo novas esperanças, somos herdeiros do caminho já feito", disseram os jovens, referindo-se a alguns dos principais nomes da Teologia da Libertação, presentes à conferência.

O cardeal Arns também foi homenageado e fez a intervenção final do encontro. O arcebispo emérito de São Paulo contou que, ao ir pela última vez ao Vaticano para despedir-se de autoridades eclesiásticas, ouviu que seu nome "causava arrepios" em muitos bispos e cardeais. Ao perguntar por que, já que nunca havia encontrado vários deles, a resposta foi: "É que o senhor é que deu o 'imprimatur' aos livros sobre a Teologia da Libertação".

Dom Paulo convidou os participantes a sair da conferência animados para trabalhar em seus grupos de origem. "Nós somos incentivadores dos pobres, e a graça do Espírito Santo dá vida, animação e formação ao povo, para que os pobres sejam os evangelizadores do mundo novo", exortou. "Nossa prospectiva é para o bem e para a paz", disse, antes de dirigir a bênção final.

A mensagem da Conferência reafirma que "sem memória não há profecia" e diz que "as lutas crescentes dos povos indígenas, dos afro-americanos, das mulheres e da juventude, dos desempregados, sem-terra no campo e sem-teto nas cidades, questionaram nossa prática".

"Na esperança militante de que 'outro mundo é possível', reafirmamos o compromisso solidário com a vida ameaçada das maiorias populares e do próprio planeta terra/água", continua o texto.

As novas realidades de um mundo complexo, plural e globalizado questionam também a maneira de produzir teologia. Por isso, a mensagem defende que o imperativo cristão hoje é "forjar uma ética mundial que garanta uma casa comum e habitável para todos os homens e mulheres".

"Reiteramos a aspiração a uma verdadeira integração latino-americana e caribenha, em que se articulem pessoas, movimentos, instituições culturais e  sociais, econômicas e políticas, partindo das necessidades e urgências de nossos povos, e não apenas dos interesses do mercado financeiro e das grandes corporações", defendem os participantes da conferência.

O documento define as atuais propostas da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA) como "forma de inserção subordinada ao megamercado norte-americano, sob a égide de um neoliberalismo excludente".

A vocação ecumênica é defendida com o chamado para o estreitamento dos laços de diálogo e cooperação "com pessoas de outras religiões e com todas as mulheres e homens comprometidos com as causas da justiça e da libertação".

"Porque cremos na Páscoa, como vitória sobre o pecado, a escravidão e a morte, proclamamos com renovada alegria nossa esperança. Esse 'outro mundo possível' também é sonho de Deus", finaliza a mensagem.