
Filhas de Abraão e Sara
Oneide Bobsin, SAO LEOPOLDO, Brasil
Por ter uma filha sem ser casada, a nigeriana Amina Lawal foi condenada à morte Taxi Heathrow Airport por apedrejamento. Ela é mãe de duas crianças do primeiro casamento. Hoje, uma das razões de viver é sua filha Wasila, que ela amamenta num vilarejo distante da terra natal, a fim de evitar ameaças de grupos extremistas.
Se sua advogada Hauwa Ibrahim lograr êxito na defesa, como aconteceu em outro caso, Amina quer casar novamente. Mas elas não estão sozinhas na luta.
Ao lado de Amina, Hauwa e Wasila estão os movimentos internacionais de defesa dos direitos das mulheres, que precisam agir com prudência para não instigar os juizes que se orientam pelo código legal islâmico, denominado sharia. Lutar contra ela pode enfurecer mais os governantes locais. O governo central, por sua vez, dirigido por um cristão não se define por ter recebido a metade dos votos dos muçulmanos.
Amina não se sente culpada pelo que fez. Para ela, o poder de Deus está por trás dela e da filha. Foi o pai de Wasila quem não cumpriu com a palavra ao não se casar com ela. E os juizes que se baseiam na sharia, isentaram-no por suposta falta de provas. Mas não titubearam em usar a criança como prova do “crime” contra a mãe.
Embora tenha perdido na fase inicial do processo, a advogada sustenta ser possível ganhar a causa. Para ela, o Alcorão transformou-se numa obra de direito.
A imposição da sharia sofre grandes resistências internacionais. Nas tribos do norte da Nigéria, onde predominam governos islâmicos, a prática sexual começa muito cedo. Amina foi casada aos 13 anos.
O código legal islâmico lida com dificuldades com a prática sexual precoce. Além disso, a pressão muçulmana agrava a incidência de Aids entre a população local por impedir o uso de preservativos, provocando mortes.
A situação de Amina é, pois, a ponta de um iceberg. Muitas outras mulheres já foram condenadas pelo mesmo motivo. Nem por isto devemos olhar para o mundo muçulmano como lugar da barbárie, bem como para mulheres como vítimas passivas.
O mundo muçulmano, como o cristão, é bastante diversificado. Nesta diversidade reconhecemos a resistência das mulheres muçulmanas. Em outros países sob influência muçulmana, as mulheres já conseguiram uma maior igualdade com os homens. E não foi necessário impor, pela guerra, um modelo de “liberdade” dos Estados Unidos da América.
O próprio Corão mostra visões distintas sobre o papel das mulheres. Indubitavelemnte, a advogada de Amina sabe melhor do que nós a este respeito, pois ela é uma mulher muçulmana. Na Surata 4, 34 está dito que “os homens são protetores das mulheres, porque Allah dotou uns com mais força do que as outras....”
Noutro capítulo fica evidente que “as mulheres devem, de forma justa, ter direitos semelhantes àqueles exercidos contras elas (sura 2:228). Logo, mesmo que a balança penda para o lado do homem, a advogada encontrará justificativas para defender Amina.
Como filhas de Abraão e Sara, Amina, Wasila e Hauwa podem se sentir acolhidas pela tradição judaica, tronco do cristianismo e do islamismo, que nos lembra o gesto do Deus de Abraão com Ismael. O anjo do Senhor aparece para Agar e Ismael, a fim de salvá-los junto à fonte (Gênesis 16.1-14).
Certamente, as três descendentes de Abraão noutros tempos seriam relacionadas na genealogia de Jesus, como o foram Tamar, Raabe, Bate-seba e Maria ( Mateus 1.1-17). Também Maria e o profeta Jesus, como o caracterizam os irmãos muçulmanos, não foram mortos porque José deu ouvidos ao anjo do Senhor (Mateus 1.18-25).
Magistrados! Ouçam o anjo como o fez José.
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Oneide Bobsin, Pastor da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil e professor de Ciências das Religiões da Escola Superior de Teologia de São Leopoldo/RS/Brasil

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