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Quarta-feira, 19 de Maio de 2004

Dois candidatos disputam secretaria geral do CMI

Manuel Quintero, QUITO, Ecuador, Julho 16, 2003

O verão mais quente dos últimos 25 anos apresenta-se a cada dia com mais força Taxi Heathrow Airport em Genebra e o crescente número de escritórios desertos mostra o apogeu das férias na cidade de Calvino. No torpor desses longos dias, funcionários que ainda trabalham no Centro Ecumênico parecem indiferentes a um processo que, a portas fechadas, já produziu longas discussões e um desenlace incerto.

Mas a indiferença, em muitos casos, é apenas aparente. Todos sabem que se trata de um processo de transcendental importância, porque seu resultado, a eleição do novo secretário geral do Conselho Mundial de Igrejas (CMI), incidirá decisivamente na vida do organismo ecumênico mais importante até o final da presente década.

Um Comitê de Busca foi encarregado de examinar os currículos de dezenas de candidatos e candidatas, e reduzir a cinco a lista deles. Em seguida, cada um dos que integraram essa "lista menor"  - quatro homens e uma mulher conformaram o pelotão de finalistas - foi entrevistado.

Ainda assim, o Comitê não chegou a um acordo na hora de decidir pelo candidato ótimo para a secretaria geral do CMI. Em conseqüência, decidiu trazer dois nomes à consideração do Comitê Central do organismo ecumênico: Sam Kobia, do Quênia, e Trond Bakkevig, da Noruega.

O Comitê Central, constituído por 150 membros que representam a ampla gama de denominações e confissões que formam o CMI, vai se reunir em Genebra a partir de terça-feira, 26 de agosto, para ouvir uma série de relatórios, entre eles o relacionado com os preparativos da próxima Assembléia Geral, agendada para Porto Alegre, no Brasil, em fevereiro de 2006.

Mas a atenção e a energia de seus membros - e de milhões em todo o mundo - concentram-se em duas sessões fechadas: a primeira, na quarta-feira, 27 de agosto, às 11h, o Comitê de Busca apresentará o seu relatório; a segunda, imediatamente depois do almoço da quinta-feira, 28, acontece a escolha do novo secretário geral do CMI.

Se tudo ocorrer como previsto, até o meio da tarde de 28 de agosto o Centro Ecumênico terá "fumaça branca" e o nome de um novo secretário geral estará dando a volta ao mundo através das informações das agências noticiosas.

OS PREDECESSORES

Estão longe os dias em que a eleição do secretário geral do CMI era fruto da unanimidade mais inconteste. Assim ocorreu com o teólogo reformado holandês Willem Adolf Visser´t Hooft (1900-1985), no qual se juntaram uma audaz visão ecumênica e um decisivo talento fundacional.

Visser´t Hooft foi uma das figuras decisivas no movimento ecumênico do século XX. Ele teve sua experiência formativa nas fileiras do Movimento Estudantil Cristão. Foi nomeado secretário do Conselho Mundial em formação, e em 1948, quando o CMI se constituiu oficialmente em Amsterdã, ninguém imaginou outro nome senão o dele para a secretaria geral do recém criado organismo.

Tampouco a ninguém ocorreu disputar esse cargo nas duas décadas seguintes, de modo que Vissert` Hooft foi secretário geral até a sua aposentadoria, em 1966, nada menos do que 18 anos!

Sucedeu-o o presbiteriano norte-americano Eugene Carson Blake (1906-1985), por um período relativamente curto de seis anos, o menor que um secretário geral permaneceu no cargo. Antes, ele fora o principal executivo da Igreja Presbiteriana nos Estados Unidos, presidente do Conselho Nacional de Igrejas desse país e um incansável defensor dos direitos civis.

Philip A. Potter (1921), da caribenha ilha da República Dominicana, missionário no Haiti, presidente da FUMEC e membro da Sociedade Missionária Metodista em Londres antes de unir-se ao CMI como diretor da Comissão sobre Missão Mundial e Evangelismo. Em 1972, foi nomeado para substituir a Carson Blake e desempenhou o cargo durante 12 anos, até 1984.

Emílio Castro (1927), pastor metodista uruguaio, foi coordenador da Comissão para a Unidade Evangélica Latino-Americana (Unelam) e diretor da Comissão sobre Missão Mundial e Evangelismo do CMI entre 1973 e 1983. Em 1985, ele sucedeu Potter na secretaria geral do CMI, onde permaneceu até 1992.

Dr. Konrad Raiser (1938), teólogo luterano alemão, foi secretário de estudo da Comissão Fé e Ordem do CMI de 1969 a 1983, e secretário geral adjunto durante o período de Philip Potter. Em 1993, substituiu Castro na secretaria geral. Ele completará dez anos no cargo no final de 2003. Em 28 de agosto, o Comitê Central vai escolher o sucessor de Raiser entre dois candidatos de destacada trajetória eclesial e ecumênica.

O Dr. Trond Bakkevig é membro do Comitê Central do CMI e preside o Comitê para Assuntos Públicos do organismo ecumênico. Recentemente, foi coordenador de painel de estudo das relações entre o Estado e a Igreja na Noruega. Esteve entre os líderes cristãos da Europa e da América do Norte que realizaram ampla campanha contra a intervenção militar dos Estados Unidos no Iraque.

O reverendo Kobia desenvolveu longa carreira ecumênica de caráter nacional, com o Movimento Estudantil Cristão e o Conselho Nacional de Igrejas do Quênia, do qual foi secretário geral. No CMI, atuou primeiro como funcionário do programa de Missão Urbana e Rural, depois em posições de liderança cada vez mais importantes, até chegar a diretor de um dos três grandes grupos programáticos do Conselho. Hoje, Kobia é o representante especial para a África no CMI.

PROGNÓSTICO DIFÍCIL

Quais fatores serão decisivos na hora da votação? Se funcionará no seio do Comitê Central a dinâmica de blocos regionais, Bakkevig teria garantidos cerca de 60% dos votos necessários para a sua eleição.

Os representantes da Europa no Comitê somam 47 pessoas e constituem o conjunto regional mais importante, praticamente o dobro de outros três blocos significativos (América do Norte e Ásia com 23 representantes cada, e África com 22). Ninguém pode assegura, porém, que a votação se inspirará no critério das identidades culturais ou geográficas.

De qualquer maneira, uma aliança transatlântica (Europa e América do Norte), apoiada pelos votos do Oriente Médio, constituiria uma fórmula vencedora (as três regiões somam 83 votos). Mas, de novo, é difícil imaginar semelhante homogeneidade, de modo especial no caso da representação norte-americana.

Ainda é preciso considerar as possíveis lealdades confessionais (17 metodistas e oito luteranos estão no Comitê Central) que aparecem contra a natureza de qualquer dinâmica regional, e um fator de grande peso: a representação das igrejas ortodoxas.

O posicionamento ortodoxo pode ser um fator decisivo, se seus representantes no Comitê Central (39 no total, o grupo confessional mais importante) seguirem, disciplinarmente, uma determinada orientação na hora de exercer o voto, em razão de como sentirem que seus interesses particulares serão representados e defendidos por um ou outro candidato.

Para aqueles que não prestam muita atenção a fatores de índole cultural ou confessional, o mais importante será discernir como os candidatos vão encarar os sérios e urgentes desafios que o CMI tem diante de si, e se realmente apresentam a visão, a energia e a capacidade para enfrentá-los. Desafios que incluem tanto o esgotamento da visão ecumênica como a precária situação econômica do organismo.

TAREFA DIFÍCIL

O movimento ecumênico vive um momento particularmente crítico em sua história. Embora em cada rincão do planeta existam igrejas comprometidas com a busca da unidade, e não são poucas as que entendem que a vocação ecumênica é parte de sua própria identidade, também se multiplicam e crescem as chamadas igrejas "livres"  ou "independentes" que, imbuídas da maior auto-suficiência teológica, rejeitam de cara qualquer esforço de diálogo e cooperação com outras denominações, reforçando, antes, a sua identidade particular.

Por outra parte, a busca da unidade entre os cristãos não ocorre, de maneira crescente, no marco das estruturas ecumênicas existentes, mas através de experiências muitas vezes espontâneas e em geral pouco estruturadas. Vive-se assim o que alguns teólogos chamaram de "ecumenismo do espírito", fenômeno que transborda qualquer tentativa de institucionalização e questiona a razão de ser das instâncias ecumênicas tradicionais.

No próprio CMI, as igrejas ortodoxas expressaram, nos últimos anos, de maneira muito clara o seu mal-estar com os procedimentos e os temas que fazem parte da agenda do CMI. Essa situação determinou a criação de uma comissão especial que estudou a fundo a queixa dos ortodoxos e produziu uma série de recomendações, adotadas pelo Comitê Central em setembro de 2002, que, por sua vez, criou mal-estar em igrejas de tradição reformada.

Existe, além disso, uma tensão não resolvida entre aquelas igrejas membros que esperam do CMI um compromisso prioritário com as discussões teológicas e doutrinais, e outras que enfatizam um ecumenismo que coloca em primeiro lugar o testemunho comum nas lutas por justiça, paz e a integridade da criação.

Essa crise vem acompanhada de uma drástica redução do apoio financeiro ao CMI, devido, em parte, à diminuição das contribuições de seus doadores, e, também, por perdas na pasta dos investimento.

Este ano, o CMI experimentou uma diminuição de cerca de 6 milhões de francos suíços em seus ingressos, o que o obrigou-o a reduzir em 15% adicional o seu pessoal, mediante encerramento de contratos, redução de horas de trabalho e realocação de pessoal em algumas regiões.

Diante dessa realidade, a pergunta que muitos se fazem, se é possível diminuir ainda mais o grupo de trabalho em Genebra sem debilitar seriamente a capacidade administrativa e executiva do CMI para cumprir o seu mandato e ser um mecanismo eficaz na promoção da unidade e da cooperação entre as mais de 340 igrejas membro em escala mundial.

Assim que, qualquer que seja eleito em 28 de agosto terá diante de si uma tarefa formidável: trabalhar para uma renovação ou "aggiornamento" da visão ecumênica, e demonstrar que o CMI continua sendo o instrumento mais eficaz na promoção da unidade das igrejas e na forja de um testemunho ecumênico que esteja a altura dos desafios que a globalização coloca.