Voltar ao início

Sexta-feira, 2 de Junho de 2006

Todos mestiços

Manuel López, MADRI, España

A IX Assembléia do Conselho Mundial de Igrejas (CMI), agendada para Porto Alegre, em 2006, está sendo chamada para ser o grande concílio da fé cristã em ação. Isto é, um concílio não tanto de debate de grandes questões teológicas de fundo, mas de pequenas coisas da Teologia Prática: a globalização, a multiculturalidade... A mestiçagem, viva.

Palavras maiores. A mestiçagem não é assunto em absoluto "folclórico", e sim tremendamente sério, pois encarna a essência própria da tolerância, do respeito ao diferente, da imersão cultural...

Um concílio no qual os protagonistas não serão os chefes das igrejas, mas o Senhor da Igreja, encarnado nos pobres deste mundo (Mateus 25).

Um concílio, enfim, que virá proclamar aos quatro ventos - com fatos reais, não só com belas palavras - um renovado compromisso da Igreja cristã com o lema fundador do CMI: "O serviço une; a doutrina divide".

Permitam-me sugerir publicamente ao Dr. Konrad Raiser neste novo artigo a respeito da IX Assembléia que considere a possibilidade de lembrar a quem o sucederá à frente do CMI um fato único na história da Espanha, que aconteceu há mil anos e que não perdeu vigência.

Em meu país reinava Abderramán III, "emir dos crentes" e "defensor da fé", que impôs, a partir de Córdoba, sua hegemonia em toda a Espanha muçulmana sobre árabes, cristãos e judeus, mas não se embriagou de poder. Ele teve o bom senso de firmar um tratado de paz com os cristãos.

Seu gesto mais nobre foi quando, atendendo petição da regente Tota de Navarra, enviou a Pamplona o seu médico pessoal, o judeu Hasdai, que curou a obesidade do seu filho, o rei cristão Sancho.

O reinado de Abderramán III marca o apogeu da dominação muçulmana na Espanha. Foi a época que configura o capítulo mais belo da história desse país, pelo ambiente que embebedou-se de tolerância, respeito mútuo e convivência civilizada no que seria a Espanha das Três Culturas - muçulmana, cristã e judaica.

As três culturas de então são hoje as mil culturas da nossa sociedade globalizada. A Bíblia não é alheia - ao contrário - à concórdia de etnias, povos e culturas: já não há judeu nem grego, nem escravo nem liberto, nem homem nem mulher, loiro ou moreno, eurocidadão ou imigrante "sem papéis".

Se olharmos bem, todos somos peregrinos e migrantes neste mundo. Mestiços, viva. Glória a Deus, que nos criou um só gênero humano, gloriosamente multiétnico, multicultural. Mestiço!

-------------

Manuel López, é jornalista espanhol, membro da Igreja Batista de Madrí.