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Domingo, 28 de Outubro de 2007

Glauco Soares de Lima, bispo emérito da IEAB [Foto: Ubirajara Mello]
Glauco Soares de Lima, bispo emérito da IEAB [Foto: Ubirajara Mello]

Sacerdotes são educadores

Entrevista: Edelberto Behs, PORTO ALEGRE, Brasil

Líder da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB) nos últimos dez anos, dom Glauco Soares Taxi Heathrow Airport de Lima passou a rosa dos ventos, símbolo mundial da Comunhão Anglicana, e a cruz, símbolo do ministério, ao seu sucessor, bispo dom Orlando Santos de Oliveira, em cerimônia realizada na catedral da Santíssima Trindade, em Porto Alegre, no dia 1. de junho.

Ele deixou uma IEAB mais visível na sociedade brasileira. Dom Glauco, 69 anos, ingressa no jubilamento com muitos planos. "Estou aposentado mas não estou morto", disse em entrevista para a ALC, agora como bispo primaz emérito da IEAB. Ele quer aprofundar-se na pesquisa de questões teológicas e seculares, e participar de projetos de evangelização.

Natural de Pelotas, no Rio Grande do Sul, dom Glauco matriculou-se no Seminário Teológico anglicano de Porto Alegre. Estudou, depois, no Seminário Teológico Episcopal em Cambridge. O início do seu sacerdócio aconteceu na região da Fronteira no seu Estado natal. Assumiu, mais tarde, a Capelania do Colégio Cruzeiro do Sul, na capital gaúcha.

A família, frisou, é o bem mais precioso que tem na  vida. "Desde a minha mulher, que tem me agüentado e sido companheira por 46 anos, até os filhos e netos, que são muito ligados uns com os outros, fazendo com que continuemos uma tribo de já quase 20 pessoas. São eles que me dão vontade de viver e de continuar minha carreira".

Na entrevista abaixo dom Glauco relata sua trajetória como líder da IEAB e seus planos.

ALC - No encerramento do 29. Sínodo Geral da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB) o novo primaz, dom Orlando Santos de Oliveira, referiu-se à maior visibilidade que a igreja ganhou nos últimos dez anos, durante a gestão que encerrou o seu mandato naquele Sínodo. Em que aspectos a IEAB ficou mais visível?

DOM GLAUCO - A IEAB ficou mais visível na gestão que encerrou o seu mandato por duas razões básicas: primeiro, internamente, aqui no Brasil, por ter sido desenvolvida a sua participação em questões e organismos ecumênicos, como decorrência da vocação ecumênica de nossa Igreja (dom Glauco foi presidente do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil no período 1994-1998).

Clérigos e leigos tiveram atuação destacada em outros organismos ecumênicos. Participamos também em movimentos sociais fora da Igreja em nosso país, como a luta por justiça, por ocasião do morticínio em Eldorado de Carajás.

Depois, internacionalmente marcamos nossa presença em reuniões e órgãos de trabalho na Comunhão Anglicana. O reconhecimento disso foi a vinda (em maio) dos Primazes de todo o mundo ao Brasil, onde pela primeira vez houve uma Reunião de Cúpula da Igreja Universal num país latino e do terceiro mundo.

ALC - Quais são, na sua visão, os grandes desafios que a IEAB tem pela frente nesta década?

DOM GLAUCO - Nesta década, os grandes desafios que temos pela frente são, entre outros, o reconhecimento da ação do Espírito Santo no processo de secularização; a necessidade de uma reformulação de estruturas eclesiásticas para atendermos ao imperativo da evangelização; o diálogo com os representantes do mundo científico e tecnológico frente aos desafios que o avanço da ciência e da tecnologia vão colocar diante de nós; saber discernir Revelação de padrões sócios-culturais na mensagem da Bíblia.

ALC - Como tem-se dado o crescimento da IEAB, olhando desde os seus primórdios, em Porto Alegre, até os dias de hoje?

DOM GLAUCO - Nossa Igreja tem crescido, desde os seus primórdios, a partir de um grupinho inovador enxertado na Porto Alegre dos fins do século XIX e início do século XX, até se tornar uma minoria que é atuante e está espalhada por todo o território nacional hoje.

Não é um crescimento espetacular como o das igrejas pentecostais, uma vez que, por nossa própria índole e formação, não somos uma igreja de massas. Mas é um crescimento lento e menos acentuado no Sul e mais acentuado no Nordeste. Podemos dizer que hoje já somos uma igreja reconhecida dentre as tradições históricas que atuam no país.

ALC - Como igreja minoritária, qual é a contribuição que a IEAB tem a dar à sociedade brasileira?

DOM GLAUCO - Nossa contribuição é não só em termos de serviço às comunidades onde atuamos, mas também às próprias igrejas irmãs, como mediadora para o estabelecimento do diálogo entre as mesmas.

ALC - A imprensa noticiou, recentemente, a eleição de bispo homossexual nos EUA. Essa temática também está presente na igreja brasileira?

DOM GLAUCO - Não. Aqui no Brasil a Igreja não faz dessas questões de orientação sexual tema de debates públicos. Na maioria das dioceses respeita-se a consciência moral do que cada um é na sua vida privada. Há problemas mais imediatos a serem resolvidos, como a descrença, a pobreza e a miséria.

ALC - A IEAB deu um passo corajoso na Comunhão Anglicana ao aceitar mulheres no sacerdócio. Quando é que foi instalada a primeira mulher sacerdote na IEAB e que avaliação a igreja faz do ministério feminino?

DOM GLAUCO - A primeira mulher sacerdote na IEAB foi ordenada na década de 80. O ministério feminino tem sido uma benção na vida da Igreja. As mulheres constituem a maioria na Igreja e elas têm problemas específicos que só outra mulher pode entender.

ALC - Como o senhor vê a trajetória ecumênica num plano regional, nacional e internacional?

DOM GLAUCO - A trajetória ecumênica no Brasil, e num plano regional aqui, em São Paulo, tem sido boa. No entanto, há muito que andar até que consigamos envolver mais os leigos no diálogo ecumênico. Em nível nacional e internacional temos altos e baixos, conforme a região do país e do mundo em que estejamos.

ALC - O que motiva e o que atrapalha a caminhada ecumênica?

DOM GLAUCO - O que motiva a caminhada ecumênica é o anseio por inclusividade num mundo em que, apesar do avanço na comunicação, cada vez nos isolamos mais uns dos outros. O que atrapalha é a nossa incapacidade cada vez maior de aceitarmos o que é diferente.

ALC - Como avalia o diálogo inter-religioso? Ele acontece no meio anglicano?

DOM GLAUCO - O diálogo inter-religioso é uma necessidade para a aproximação daqueles que sentem que nós, homens, não somos absolutos, que precisamos de um Deus que é visto através dos outros. Tenho visto acontecer mais em grupos ecumênicos do que no meio anglicano.

ALC - Que balanço faz do seu ministério, do seu bispado, e da sua gestão como primaz?

DOM GLAUCO - Outro dia ouvi um colega em dúvida sobre se temos alguma coisa ainda a dizer para o mundo em que vivemos. Acho que durante todo o meu ministério como sacerdote, bispo e primaz minha preocupação e realização foi fazer as pessoas compreenderem e viverem o fato de que não somos depositários de um simples acervo de doutrinas e práticas morais do passado e de um passado que não tem mais vida.

Mas, sim, somos educadores, e isso significa entender a tradição como algo que se continua construindo através de nossa criatividade para o futuro, para que o mundo creia.

Isto eu consegui, pelo menos, com alguns. Por isso valeu a pena.

ALC - O senhor tem em vista um projeto especial para esse seu período de jubilamento?

DOM GLAUCO - Vários projetos. Estou aposentado mas não estou morto. Vou fazer coisas que antes gostaria de fazer mas não podia devido aos bloqueios burocrático-institucionais. Vou aprofundar-me na pesquisa, tanto de questões teológicas como seculares. Afinal, o que é secular é obra do Espírito Santo. Vou participar de projetos diferentes de evangelização, que muitos olharão com desconfiança. Enfim, o tempo o dirá.