Voltar ao início

Quinta-feira, 3 de Julho de 2003

Palestrantes na Consulta Internacional da CVR do Peru [Foto: CVerdad]
Palestrantes na Consulta Internacional da CVR do Peru [Foto: CVerdad]

Inquietações nos processos de paz

LIMA, Perú, Junho 9, 2003

Delegados da Argentina, Colômbia, Irlanda do Norte e África do Sul que participaram do seminário Taxi Heathrow Airport internacional "Da negação ao reconhecimento" expuseram preocupações e esperanças, em entrevista ao diário El Comercio, de Lima, publicada na edição de domingo.

Mais de 20 convidados do exterior participaram do evento, reunido em três dias da semana passada nesta capital. O encontro foi organizado pela Comissão da Verdade e Reconciliação do Peru.

Enquanto não se superar na Argentina o conceito de impunidade, disse o general reformado Martín Balza, as chagas não se fecharão no país. As feridas "não se cicatrizam com indultos nem com anistias", frisou. Como comandante em chefe do exército argentino, Balza reconheceu, em abril de 1995, a responsabilidade militar nas violações dos direitos humanos cometidos durante a ditadura de 1976 a 1983.

Nos dois primeiros anos da ditadura, revelou, ele estava no Peru, como major. Entre 1992 e 1999, no entanto, na condição de chefe do Exército, conheceu muitas situações, que o levaram a pronunciar o arrependimento institucional de 1995. Esse arrependimento foi recebido com ceticismo por alguns.

O passo mais importante para a reconciliação deve ser a anulação da lei de anistia para os generais. Os que ocuparam cargos de relevância, que são poucos, devem responder à justiça, defendeu.

O senador colombiano Antonio Navarro Wolff, ex-guerrilheiro do M-19, opinou que embora o presidente Alvaro Uribe tenha moderado sua proposta inicial e não há exacerbação da violência dos direitos humanos, como se temia, ainda está longe o término do conflito, que dura quase quatro décadas.

"Creio que a primeira coisa a fracassar é a tentativa das duas partes de esmagar o outro. Isso pode conduzir à negociação, quando as partes aceitarem a impossibilidade de vitória e a possibilidade da derrota", opinou.

A etapa de negociação, vaticinou, vai demorar, mas não muitos anos. Navarro disse que o povo colombiano tem "uma enorme capacidade de reconciliação". E insistiu: "Repito, na Colômbia temos uma admirável capacidade de matar-nos, mas também temos uma admirável capacidade de reconciliação".

A diretora de Estudos de Conflitos da Universidade de Ulster, Maria Fitzduff, informou que na Irlanda do Norte "a situação é de conflito e é muito difícil encontrar uma saída".

"Deve ser firmado acordo que respeite as diferentes identidades", apontou. O problema é que quando há conflito a confiança desaparece. Os políticos devem cooperar entre si para achar uma solução. O êxito é possível, desde que haja entendimento político, defendeu.

"Sou muito otimista, porque creio que há uma importante oportunidade para terminar com a violência na Irlanda do Norte", estimou, anotando que várias das causas do conflito podem ser superadas.

O pastor presbiteriano Bonagani Finca, que foi membro da Comissão da Verdade na África do Sul, informou que o processo de paz começou com a libertação de Nelson Mandela e o reconhecimento político de seu movimento. O mais difícil foi as autoridades aceitarem que era preciso chegar ao fundo do esclarecimento da verdade, revelou.

Hoje, acrescentou, a tarefa mais difícil é construir uma nação unida, na qual prime o respeito. A Comissão da Verdade tratava de estender pontes, porque não buscava apenas uma reconciliação social, política, mas também econômica.

"O grande desafio na África do Sul é o poder político entender que há muito por fazer para que o país caminhe e chegue a um desenvolvimento na educação e na saúde pública", sinalizou.