Attali questiona mitos e retoma princípios da ética
SÂO PAULO, Brasil, Junho 6, 2003
A associação do judeu ao dinheiro é um mito, assim como é falso vincular o Taxi Heathrow Airport protestantismo à origem do capitalismo, uma vez que o capitalismo surgiu, no mínimo, no século XII na Europa, bem antes, portanto, do início do protestantismo.
A análise é do economista francês Jacques Attali, que comentou, em entrevista para o jornal Valor Econômico, seu recente livro "Les juifs, le monde et l'argent", no qual mostra que o papel dos judeus no desenvolvimento das finanças foi uma imposição e não uma escolha.
"Não escrevi o livro para destruir qualquer tese que seja, mas para tentar compreender", disse Attali na entrevista ao Valor Econômico.
"O inventor do monoteísmo - avaliou o economista referindo-se ao judaísmo - foi bastante instrumental na implantação de valores fundadores da ética do capitalismo, principalmente no fato de que o dinheiro só tem sentido se é colocado a serviço de um projeto que o ultrapassa e se é um instrumento a serviço do bem-estar coletivo, e não do bem-estar individual".
Attali também contesta que a lei do talião - olho por olho, dente por dente - seja judaica. "Na verdade, no texto bíblico há a idéia de que é preciso substituir o ato de vingança por uma indenização monetária. A grande idéia fundadora judia é a de parar com o ciclo de violência, não opor a vingança à violência. O dinheiro, a lei do mercado, torna-se um modo de pacificação e de civilização", arrolou.
Para o economista francês, o "tsedaka", uma espécie de imposto de solidariedade, funciona como um imposto de renda voluntário. A pessoa destina voluntariamente em torno de 20% do que ganha aos pobres. "Não pagando ao Estado, mas dando, seja diretamente ou numa forma anônima, aos pobres. É um imposto de redistribuição", explicou.
No livro, Attali informa que no ano 1000 viviam na Europa cerca de 150 mil judeus, que seriam, durante três séculos, os únicos a poderem emprestar dinheiro, porque a Igreja não permitia que cristãos fossem agenciadores de empréstimos pecuniários.
Assim, os judeus atenderam uma demanda por crédito existente no Velho Mundo e se tornaram "os banqueiros da Europa. Pode-se dizer que eles deflagraram o capitalismo europeu".
Mais tarde, o protestantismo retomou a idéia de que o dinheiro não é maléfico, o que significou "uma redescoberta formidável dos princípios do judaísmo". Segundo Attali, "a importância judia no mundo das finanças desapareceu completamente, primeiro no século XIV, quando os cristãos começaram a ter o direito de atuar como financiadores".
Esse papel do financiador judeu reapareceu nos Estados Unidos entre 1860 e 1910. "Depois que deixaram os bancos, muitos judeus investiram no meio espetáculo. Os grandes estúdios, como Fox, MGM, Universal, Warner Brothers surgiram graças a empresários judeus. Mas isso também terminou", historiou o economista.
Na avaliação de Attali, "houve uma instalação de um processo crítico do uso do dinheiro pelos judeus, o que os levou às profissões artísticas". Persiste, contudo, até os dias de hoje a idéia que associa judeus ao dinheiro. E isso acontece "porque os mitos levam muito tempo para morrer", disse o economista ao Valor Econômico.
Attali foi conselheiro especial do presidente francês Françoi Mitterand de maio de 1981 a abril de 1991. Ele é o criador da Planet Finance, organismo que capta microcréditos para países do Terceiro Mundo, e presidente da ACA, escritório especializado em consultoria para governos de países em desenvolvimento da África, Ásia, Europa do Leste e América Latina.

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