Voltar ao início

Terça-feira, 22 de Julho de 2003

Konrad Raiser, secretário geral do CMI [Foto: Peter Williams (CMI)]
Konrad Raiser, secretário geral do CMI [Foto: Peter Williams (CMI)]

Igreja cumpriu seu papel moral na guerra, disse Raiser

GENEBRA, Suiza, Junho 4, 2003

 Assim que terminaram as ações militares no Iraque, aqueles que se opuseram à guerra tiveram Taxi Heathrow Airport que enfrentar o anúncio de militares e de meios de comunicação, considerando a invasão militar dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha um “êxito”.

O secretário geral do Conselho Mundial de Igrejas (CMI), Konrad Raiser, respondeu, em entrevista coletiva, “perguntas críticas” que foram dirigidas a organizações, como o Conselho, que se destacaram no movimento pela paz.

Raiser também abordou a questão das propostas norte-americanas, denominadas “plano de rota”, para alcançar uma solução permanente ao conflito palestino-israelense.

Jornalista perguntou a Raiser se estava equivocado quando declarou que a guerra do Iraque era “imoral, ilegal e desaconselhável”.

Na atualidade, respondeu Raiser, “há poucas razões para acreditar que o povo iraquiano se alegre pela forma como foi `libertado´. É um fato que a guerra foi curta e `exitosa´, ao menos no que diz respeito ao fim do regime de Saddam Hussein”.

Ainda assim, prosseguiu o secretário geral, “eu manteria o juízo crítico anterior. O êxito militar não confere legitimidade moral. Segundo os critérios da ética clássica da guerra e da paz, essa guerra teria que ser qualificada de imoral. Foi um golpe preventivo, e, de algum modo, um `último recurso´”, explicou.

Ninguém, nem mesmo a administração dos Estados Unidos, “nega que a guerra violou as normas vigentes de direito internacional, começando pela Carta das Nações Unidas e incluindo as Convenções de Genebra, pelas quais ela tem que ser qualificada de ´imoral´”, disse.

Permanece, então, a questão da oportunidade política de utilizar a força militar contra o Iraque. A principal razão que se apresentou foi a acusação de que o Iraque tinha armas de destruição de massa e estava disposto a utilizá-las, constituindo, assim, uma ameaça iminente para a paz mundial e para a segurança dos Estados Unidos. Até agora não se encontrou nenhuma arma desse tipo, e mesmo se existissem, elas não foram utilizadas, argumentou Raiser.

Por conseguinte, a suposta ameaça à segurança dos norte-americanos não existiu. Dessa forma, o principal “êxito” dessa guerra foi invalidar sua pretendida justificação oficial. “Sigo convencido de que, a longo prazo, se verá que a guerra não resolveu nenhum dos problemas políticos mencionados como objetivos, e criou uma situação caótica para que não se veja nenhuma solução”, arrolou.

Outro jornalista perguntou se o CMI, bem como outras organizações, não exageraram ao prever uma “catástrofe humanitária”, com grande número de vítimas civis e milhares de refugiados no caso da guerra do Iraque.

Raiser respondeu que se alegra pelo fato de que, segundo os dados disponíveis até agora, a destruição causada pela guerra tenha sido menor do que previsto. “Mas também nos damos conta de que as forças da coalizão e os meios informativos manobraram para projetar a imagem de uma guerra `reparada´, na qual as vítimas civis eram quase invisíveis”, apontou.

Em qualquer caso, dado o valor absoluto de toda vida humana aos olhos de Deus, “cremos que toda guerra é uma tragédia humana que não pode ser objeto de medida quantitativa”. Além disso, uma das conseqüências das guerras com alta tecnologia é que os efeitos destrutivos e as mortes, tanto entre a população civil como entre os militares, só aparece com o tempo.

Quantos civis inocentes ainda morrerão por causa das bombas que não explodiram ou das minas terrestres esquecidas, ou por causa de munições enriquecidas com urânio? – indagou.

As milhares de armas pequenas distribuídas para a população durante a guerra seguirão fazendo o seu trabalho letal. Quantas crianças morrerão por causa da destruição do sistema de distribuição de água? – perguntou o pastor. Embora a reconstrução material comece logo, a recuperação sociológica e social levará mais tempo, isso sem falar na perda do extraordinário patrimônio cultural do Iraque, lembrou.

Para Raiser, a administração militar dos Estados Unidos não estava preparada e tem sido incapaz de resolver os problemas humanitários derivados da guerra. “A exclusão deliberada, até o momento, de organizações humanitárias profissionais, entre elas o Comitê Internacional da Cruz Vermelha, é inaceitável sob qualquer ponto de vista, ainda mais quando se sustenta que essa guerra foi feita para ´libertar o povo iraquiano´”, afirmou.

Diante da ineficácia das Nações Unidas, que outras alternativas reais existiriam para fazer frente aos ditadores e às violações graves dos direitos humanos, como as que ocorreram no Iraque durante décadas, perguntou outro jornalista.

Segundo Raiser, “nenhuma das recentes intervenções militares contra regimes ditatoriais e em situações de violações de massa dos direitos humanos trouxeram efetivas soluções. Há uma eficiência aparente à primeira vista, mas a intervenção militar nunca vai às causas profundas e deixa sem resolver a maioria dos problemas”, frisou.

A guerra do Iraque, avaliou, não produziu uma mudança de regime, mas uma demolição do regime, sem uma mudança construtiva e sustentável. As Nações Unidas poderiam ser muitos mais efetivas se governos, como o dos Estados Unidos, permitissem utilizar os instrumentos políticos disponíveis e prestassem apoio para tanto.

A pretensão dos Estados Unidos de defender os direitos humanos é invalidada pela seletividade da intervenção, já que, em outros casos, estão apoiando ou inclusive constituindo regimes ditatoriais. Raiser recordou que tanto Saddam Hussein como Osama Bin Laden receberam apoio dos Estados Unidos em outras épocas.

Raiser foi perguntado, em vistas às críticas que expôs aos Estados Unidos, se o CMI tinha uma posição contrária aos norte-americanos.

O CMI, respondeu Raiser, “não é a favor nem contra nenhum governo. O Conselho sempre tem sido conseqüente ao advogar pela justiça, pelo respeito aos direitos humanos, pela observância das leis e pelas respostas pacíficas aos conflitos. As igrejas têm uma responsabilidade moral e devem ter a possibilidade de se pronunciar contra o que cremos seja contrário aos ensinamentos de Cristo”.

Em qualquer caso, as posições do CMI coincidiram com as das igrejas membros nos Estados Unidos, que criticaram com firmeza a posição do governo Bush frente ao Iraque; o mesmo o fizeram igrejas da Grã-Bretanha.

“O Comitê Executivo do CMI louvou a valente atitude de ambos os grupos de igrejas. Elas enfrentaram – como nós – a classe de críticas que uma atitude profética frente aos poderes costuma suscitar”, disse.

Declarações do CMI advertiam que a guerra produziria uma maior desestabilização no Oriente Médio. Mas agora há um “plano de rota” para a paz entre israelenses e palestinos, e muitos pensam que a atuação enérgica no Iraque pode funcionar como atitude de disuasão para ditadores e terroristas. “Qual é sua opinião a respeito”, perguntou um jornalista.

O “plano de rota”  é impreciso e longe de ser ideal, disse Raiser. Nele aparecem muitos elementos vagos e preocupantes. Ainda assim, ele abre uma janela de oportunidade, embora pequena, para uma solução de dois Estados. É muito importante que se afirme claramente que a solução do conflito está ancorada nas resoluções 242 e 338 das Nações Unidas, apontou.

A aplicação dessas resoluções significaria o final da ocupação que começou em 1967, e levaria ao surgimento de um “Estado palestino independente, democrático e viável, que convivesse em paz e segurança com Israel e com seus demais vizinhos”.

Afora isso, o “plano de rota” menciona a iniciativa da Arábia Saudita assinada pela Cúpula de Beirute da Liga Árabe, que instou à “aceitação de Israel como vizinho pelos Estados árabes”.

O “processo de paz de Oslo” reza que palestinos e israelenses terão que negociar as questões permanentes de status, como fronteiras, Jerusalém, assentamentos, refugiados, mas o “plano de rota” quase não faz menção a essas questões.

“Até agora, o certo é que a guerra no Iraque não tornou a região mais estável, mas ela introduziu novos fatores de incerteza. Embora a posição das igrejas cristãs poderia, em certa medida, tê-la limitado, subsiste a percepção entre muitas populações muçulmanas de que a guerra é parte de uma estratégia de longo prazo para forçar o Oriente Médio a se reordenar segundo os interesses ocidentais”, afirmou Raiser.

O gigantesco movimento contra a guerra, do qual as igrejas foram parte principal, não conseguiu impedi-la. Há quem veja nesse fato um indício de que as igrejas institucionais são ineficazes e irrelevantes na sociedade de hoje. Outro jornalista perguntou a Raiser como ele via essa questão.

Se as igrejas em sua participação no movimento contra a guerra tivessem aceitado os mesmos critérios de valorização que os governos, respondeu Raiser, “sua intervenção teria que ser considerada ineficaz, porque não serviu para mudar a determinação do governo dos Estados Unidos de ir à guerra”.

“Mas o protesto e a resistência das igrejas não apontavam o objetivo imediato de impedir essa guerra particular, mas a impugnar a aceitação da guerra como instrumento normal da política de poder”, analisou o secretário geral do CMI.

Às igrejas, prosseguiu, não interessava – nem lhes interessa – em primeiro lugar a efetividade pragmática, mas o que as move são motivações de fé e testemunho como base de convicções éticas fundamentais, embora à primeira vista possa parecer que sua luta foi perdida. No entanto, a unanimidade do protesto das igrejas reforçou suavoz e realçou o seu papel moral na sociedade. Isso é mais importante do que seu poder institucional, frisou Raiser.

Outra pergunta crítica indagou se o CMI e as igrejas de todo o mundo participaram em orações pela paz, que, ao que parece, não receberam resposta. “Você crê no poder da oração?”

A oração, respondeu o entrevistado, é antes de tudo “voltar-se a Deus e deixar que Deus tome posse de nossos corações e nossas mentes. Sabemos que os pensamentos de Deus não são necessariamente como os nossos e que Deus pode responder a nossas orações de maneira inesperada”.

Uma dimensão muito importante da oração, concluiu Raiser, é a intercessão, o lembrar-se uns dos outros diante de Deus, reforçando assim o sentimento de fraternidade espiritual, especialmente com aqueles que estão expostos à guerra e à violência, e são suas vítimas. No movimento ecumênico abundam os testemunhos do poder da intercessão mútua, frisou.