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Sexta-feira, 5 de Novembro de 2004

Doutor Oneide Bobsin
Doutor Oneide Bobsin

Primeiro de Maio

Oneide Bobsin, SAO LEOPOLDO, Brasil

 No princípio houve uma sublevação nos céus. Os deuses inferiores  foram incitados a  protestarem contra Taxi Heathrow Airport o  trabalho que lhes fora imposto pelos deuses  superiores. O líder da greve foi preso. Como condenação, cortaram-lhe os vasos sanguíneos. Do sangue da divindade nasceu a humanidade, sobre a qual caiu o árduo trabalho.

 Criada a humanidade, os deuses estavam livres do trabalho forçado. Construíram, então, um santuário ao deus que os libertou do trabalho forçado. Enquanto  prestavam culto ao deus libertador, a humanidade trabalhava  arduamente; ela comia o pão, fruto do suor do rosto.

 Sob o trabalho forçado numa terra seca e cheia de cardos e abrolhos, mulheres e homens se rebelam contra os reis que haviam se tornados senhores das terras ao se fazerem acreditar deuses. Diferente da rebelião nos céus, da nova sublevação nasce o dia do descanso e de culto.

 No relato da criação do mundo e da humanidade, conforme as primeiras páginas da Bíblia, o palco da rebelião não mais é o céu, mas a própria Terra, cujo único dono é o Criador e não os reis/deuses. E os seres humanos, feitos  à  semelhança do Criador, são apresentados como imagens que substituem os reis/deuses.

Mas as quedas da humanidade  fazem-na voltar para os velhos deuses. Na caminhada para a Terra Prometida mulheres e homens se cansam do caminho árduo da libertação no deserto e fabricam um bezerro de ouro, ao mesmo tempo que  clamam pelas panelas de carne dos tempos de trabalho forçado no Egito. Mas o ouro fundido em forma de bezerro/deus não foi capaz fazer parar a caminhada.

Os fragmentos do mito babilônico e o novo significado dado pelos autores bíblicos estão longe de meros relatos do passado. Sua atualidade se reflete na luta pelo trabalho como afirmação de vida.

A comemoração do primeiro de maio em grande parte de nosso planeta reafirma a centralidade do trabalho como meio de afirmação de uma vida digna. Já distantes de um tempo de comemoração festiva, trabalhadores e trabalhadoras lamentam o ócio imposto por um sistema de exclusão. A via sacra de milhões e milhões de trabalhadores em busca de uma vaga de trabalho  nos remete para o tempo mítico dos babilônicos; só que desta vez o mito é vivido ao avesso. Homem e mulheres  imploram por trabalho, mesmo precário e em condições vis.

 Homens e  mulheres, jovens e velhos, oram aos deuses de nosso mercado pedindo  que não mais lhe imponham o desemprego como ócio forçado. Seus clamores ferem nosso senso de justiça: Ó deuses do mercado, criem mais postos de trabalho!

Mas o Criador da luz desce do alto e vem mostrar uma nova luz, fazendo  do mundo uma vinha (Mateus 20. 1-16). Mesmo os que trabalharam apenas uma hora receberam do bom Senhor o mesmo salário, causando insatisfação nos que trabalharam o dia inteiro. A bondade do Senhor da vinha revela que a satisfação das necessidades da vida estão acima do trabalho.

A redução da jornada de trabalho sem diminuição de salário, como uma das formas de aumento de postos de trabalho, recebe uma motivação evangélica e o sangue derramado de Jesus nos mostra que um mundo de trabalho para todas as pessoas é possível.

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Oneide Bobsin, Pastor da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil e professor de Ciências das Religiões da Escola Superior de Teologia de São Leopoldo/RS/Brasil.