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Quarta-feira, 10 de Novembro de 2004

José Luis Andavert, diretor da Sociedade Bíblica da Espanha e membro da Primeira Igreja Batista de Madri
José Luis Andavert, diretor da Sociedade Bíblica da Espanha e membro da Primeira Igreja Batista de Madri

O poder de Dona Tecla

José Luis Andavert, MADRI, España

Dias atrás aconteceu-me uma coisa curiosa. Comunicado da Receita Federal me informava que, a pedido Taxi Heathrow Airport da Secretaria da Fazenda da prefeitura de Sevilla, minhas contas bancárias seriam embargadas, o mesmo ocorrendo com o meu salário, para cobrir uma dívida.

A razão? Parcela do imposto municipal sobre veículo de "minha" propriedade que não foi pago em 1993. E qual era o veículo em questão? Um carro que vendi e transferi, segundo todas as leis vigentes, em 1987!

De imediato pensei no embrulho que caiu em cima de mim, na papelada que teria que apresentar e nos encaminhamentos que ouviria: "Primeiro pague e depois reclame, e espere que lhe devolvam o dinheiro". Isso é o que costumeiramente acontece nesses casos, e, se te devolvem o dinheiro, é sem correção, claro.

Entrei em contato com a Secretaria municipal de Sevilla para tratar de ver como proceder, a fim de esclarecer o assunto. Devo dizer que o pessoal foi muito amável no tratamento.

Secretaria: Sim, em que posso ajudá-lo?
Eu: Bom dia, senhora. Eu sou o fulano de tal e está ocorrendo isso e aquilo...
Moça: Diga-me o número do protocolo...
Eu: É o número...
Moça: Ah! Pois bem, sim. Está correto.
Eu: Sim, veja, eu transferi o carro em 1987 e... blá, blá, blá.
Moça: Será que você não deu a baixa porque... vejamos, o computador o informará.
Eu: Mas? Poderia fazer o favor de comprová-lo?
Moça: Um momento, vou entrar em contato com o Trânsito.
Moça: Ah, sim, perdão. Aqui há um erro, porque do Trânsito
dizem que, efetivamente, você transferiu o carro em 1987.
Eu: Bom, e agora, o que é que eu tenho que fazer?
Moça: Não se preocupe, já está feito!
Eu: Como assim "já está" feito?
Moça: Sim, sim. Já apertei a "tecla" e foi apagado. Já não
está mais no computador.
Eu: Obrigado. É seguro que está tudo certo? - insisti, meio incrédulo.
Moça: Sim, porque deletei no computador desde o ano de 87.
Eu: Bom, então mais uma vez obrigado, e até logo.
Moça: Bom dia.

Ao colocar o telefone no gancho senti um  duplo sabor. Por um lado, estava contente porque o problema estava resolvido. Por outro lado, porém, sentia-me totalmente inquieto pela forma e a profundidade com que o caso foi resolvido.

Comecei a refletir sobre o assunto e o poder que uma simples tecla de deletar tem. Assim, sem mais, apertam a tecla deletar e te apagam de uma só vez. Ou seja, a pessoa que está em frente ao computador quase controla o destino de tua vida. Tua vida igual a uma tecla!

Muitas coisas me vieram à mente:

Lembrei do filme "A rede", na qual fazem desaparecer a vida das pessoas manipulando suas identidades no computador.

Lembrei da internet e a quantidade de sítios nos quais deixamos nossos dados pessoais.

Lembrei das vezes em que alguém faz uma reserva de avião e... não se sabe porquê, o nome dele não aparece na tela.

Lembrei das bases de dados, nas quais são recolhidos tantos dados de cada cidadão.

Lembrei do Holocausto.

Lembrei...

A verdade é que quase entrei em pânico, fiquei com medo, de pensar no poder que tem a "Dona Tecla" de um computador.

Evidentemente, as novas tecnologias representam um grande avanço e uma ajuda tremenda para nossas vidas e o desenvolvimento do mundo, mas... será que nos damos conta do que a informática está fazendo? Estamos protegidos de nós mesmos?

Penso nos parâmetros éticos e morais que governam nosso mundo  e me assusta pensar no mal que uma mente depravada pode fazer tendo acesso ao tremendo caudal de informação existente de cada pessoa.

Hoje, a rede nos controla. Os governos também estão preocupados e tratam de legislar para proteger a privacidade das pessoas, mas acontece que eles são os primeiros a fazer uso da informação.

Preocupa-me essa equação Vida=Tecla.

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* José Luis Andavert é diretor da Sociedade Bíblica da Espanha e membro da Primeira Igreja Batista de Madri. Ele é colaborador da agência IC Press, da Espanha.