![Alí Ismael [Foto: Revista Stern]](/picture/Ali_Ismael_a367be.jpg)
Balada do menino Ali Ismael
Manuel López, MADRI, España, Abril 24, 2003
Pobre menino Alí Ismael. Ali estás, prostrado, olhando-me fixamente, com esse olhar terno e duro, Taxi Heathrow Airport digno e inquisidor. Malditas sejam as guerras. Teus olhos de anjo não te salvaram de ser um dos seres aqui e agora mais afrontosamente destroçados do mundo. É um milagre que vives. Que selvagens! Que imensa fúria!
És vítima por todos os lados. Primeiro, da tirania dos que mudaram a riqueza do teu país num inferno para os pobres. Mas esses ao menos te conheciam e, sobretudo, te deixaram viver. Vivendo mal, sem dúvida, mas viveste.
Foram outros, esses desconhecidos, os arrogantes, prepotentes e enlouquecidos invasores, em cujos peitos logo pendurarão medalhas nos desfiles militares nos Estados Unidos, os que jogaram o inferno em cima de ti, Alí Ismael.
Que um raio quebre as consciências desses loucos de atar, bêbados de bombas, destruição e sangue, que deram a sinistra ordem de profanar o silêncio da noite para bombardear o bairro em que estava a tua casa com a hipócrita escusa de buscarem "armas de destruição em massa". As próprias, deles mesmos, claro.
O "perigoso material" que levaram foram as vidas de tua mãe e o filho que ela tinha em seu ventre, o teu padrasto, o teu irmão, as tuas seis irmãs. E os teus braços. Depois o asco, o final violento e trágico, a septicemia. Teu calvário.
Tão terrivelmente solitário e desamparado ficaste num mundo em que sequer tens mãos com as quais possas enxugar-te as lágrimas.
Dizem crer em Deus, e em sua execrável arrogância até profanam o seu nome, e se ufanam de fazê-lo, pintando textos sagrados em seus malditos capacetes de guerra. Mas todos sabemos que é um porca mentira. Aquele que crê, vive e deixa viver. Vive e crê para a vida. Portanto, não mata. Jamais.
Escuta-me bem, por favor, Alí Ismael: o Deus deles não é nosso Deus. Nunca o poderá ser. Nosso Alá/Javé/Deus – sim, é o próprio Deus – não quer a guerra, mas a paz, nem que joguem bombas sobre crianças para matá-las ou mutilá-las, mas que elas vão ao colégio, sejam saudáveis e possam crescer felizes.
Deus manda "não matar". E os desalmados invasores que dizem ter atuado em seu nome causaram a morte dos teus e provocaram as tuas queimaduras, menos no rosto e nos olhos, a única parte que pudeste proteger com os braços, que a bomba te arrancou. Crentes? Não! Criminosos!
Quem não compreende a tua infinita dor, a tua dilacerada impotência, a tua terrível solidão, a tua tristeza inconsolável, a tua monumental irritação contra a própria vida, é que não tem coração. Em teus 12 anos, Alí Ismael, estás sofrendo um drama que a maioria dos maiores que conheço não agüentariam.
Mas alguém tem que tentar dizer-te algum dia, Alí Ismael, que não és nenhum desconhecido para milhões de pessoas no mundo no qual cremos em Alá/Javé/Deus, no qual pessoas saem às ruas gritando: "Não à guerra!" Teu nome, Ismael, é muito bonito. Quer dizer: "Deus ouve". Um de meus filho tem o mesmo nome.
Dirás, claro, que é muito bonito que exista um só Alá/Javé/Deus e que Ele não é o deus dos malvados que te arruinaram a vida, mas o Deus de pessoas com coração de carne. Mas tu segues abrasado, dolorido, sem braços.
Compreenderei que sigas alimentando tua raiva contida, sem mãos que possam tapar teus olhos nem elevar-te ao céu, nem usar os punhos para golpear paredes. Raiva contida, digo, em proporção inversa a tua cada vez menor garra de seguir vivendo.
Oxalá – sim, queira Deus, assim se usa em teu idioma; aqui dizemos essa palavra sem reparar que com ela invocamos Alá/Javé/Deus – algum dia possam recompor os teus braços. Tenha confiança, Alí Ismael. Siga sendo forte. Alá/Javé/Deus pode fazer milagres através das mãos dos médicos. Somos muitos os que em todo o mundo assim o clamamos em oração.
Quando teus pais eram crianças, em outra guerra, a do Vietnã, na qual os aviões lançaram sem misericórdia bombas sobre pessoas, aviões que eram do mesmo país dos que arruinaram a tua vida, queimaram viva uma menina de nove anos com uma arma de destruição de massa – deles, como sempre, claro – chamada napalm. Aquilo foi espantoso. De ti ceifaram os braços; dela, a menina Kim Phuc, queimaram o corpo inteiro.
Meio mundo manifestou-se, então, nas ruas contra a barbárie militar dos Estados Unidos. Veja, há pouco conheci pessoalmente aquela menina, hoje mãe, uma mulher encantadora. Um anjo neste vale de lágrimas.*
Seu segredo para sobreviver não foi outro do que o de render sua vida aos pés do Senhor Jesus Cristo, hospedar-se em seu perdão e perdoar os criminosos que queimaram o seu corpo. Só é possível vencer o ódio com amor.
Dou fé de que Kim Phuc é uma pessoa feliz, que contagia felicidade. Alá/Javé/Deus é grande, querido Alí Ismael. Grande... e bom, muito bom. Ele é nosso Pai. Tenho certeza de que ele vai te abençoar de uma maneira muito especial. Já o verás. Feche os olhos e confia Nele.
Alí Ismael. Querido menino que me olhas com teu olhar penetrante de eternidade. Confesso-te que não sei como será a vida eterna no céu, mas te asseguro pelas promessas do Deus da Bíblia que ali não ficarás sem os braços. Os guerreiros, aos que entre aplausos carregam medalhas e te arrancaram com suas bombas, não puderam privar-nos do teu olhar nem do teu coração. Essa é a tua arma, Alí Ismael, o teu coração. Perdoa-os, porque esses desalmados, sim, sabiam perfeitamente o que faziam. Perdoando-os é a única maneira com a qual podemos desarmar e anunciar o Reino de Deus aqui na Terra.
Fico com essa vontade de mandar-te um abraço, mas não é coisa de fazer-te sofrer ainda mais, meu querido Alí Ismael, já que, ai, não podes abraçar ninguém.
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Manuel López, jornalista evangélico espanhol.
As fotos do artigo foram tomadas da edição de "Stern", do dia 10 de abril de 2003, e serão comentadas na seção "Revista de revistas", do número de junho da revista Foto (www.revista-foto.es).

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