Marichal lamenta carta de Raiser a Castro
HAVANA, Cuba, Abril 22, 2003
Em carta aberta dirigida ao secretário geral do Conselho Mundial de Igrejas (CMI), Konrad Raiser, Taxi Heathrow Airport o presbítero cubano Pablo Odén Marichal, da Igreja Episcopal de Cuba e ex-presidente do Conselho de Igrejas de Cuba (CIC), lamentou a missiva que o líder ecumênico remeteu ao presidente cubano, Fidel Castro, questionando os processos e condenações de cubanos da oposição.
Marichal tomou conhecimento da carta que Raiser enviou a Castro através do serviço de notícias da ALC. Ele disse que não se trata de uma carta pessoal e privada a Fidel Castro, uma vez que seu conteúdo foi encaminhado aos meios de comunicação de massa.
O líder religioso episcopal alertou que os cidadãos cubanos que trabalhavam a soldo dos Estados Unidos "logicamente recebem o apoio dos meios e organizações não-governamentais para tratar de confundir o público".
Para alcançar esse objetivo, os Estados Unidos e as nações comprometidas com sua política "pressionam brutalmente indivíduos, organizações e países para a consecução de seus propósitos: condenar Cuba", disse Marichal. Se o CMI observasse uma posição independente ou se abstivesse, prosseguiu, já não seria considerada uma organização amistosa.
Os cubanos, apontou Marichal, conhecem bem como funcionam essas pressões externas, que colocam em crise orçamentos, independência, dignidade e honestidade, entre outras coisas. "Quanta vontade e princípio é preciso ter para não sucumbir diante delas!", assinalou.
Os processos sumários, "de acordo com os nossos procedimentos legítimos", disse Marichal na carta que enviou a Raiser, "não violam os processos devidos, nem deixam os acusados indefesos; prova disso é que todos os acusados e seus advogados tiveram acesso às conclusões da justiça, e que o tratamento foi humanitariamente correto".
Ele perguntou o que Raiser teria a dizer do caso dos 2 mil presos nos Estados Unidos que teriam relação com o atentado contra as Torres Gêmeas de Nova Iorque, cujos nomes não se conhece, nem dos afegãos presos na base naval norte-americana de Guantánamo, Cuba, que não foram levados a tribunal algum.
"Espero que você também tenha escrito ao presidente norte-americano George Bush, suplicando clemência para as monjas Carolyn Gilbert, Jackie Hudson e Ardeth Platte, de Greeley, Colorado, Estados Unidos, para as quais foram pedidos 30 anos de prisão porque se opuseram à guerra contra o Iraque e às armas de extermínio em massa, quando ingressaram num silo dessas armas na Califórnia", alfinetou o líder religioso cubano.
Também mencionou o caso de "cinco cubanos que lutavam contra o terrorismo, indevidamente presos nos Estados Unidos, onde sofreram tratamento desumano, violação de seus direitos, torturas psicológicas", além de seus familiares que tiveram negado, na sua grande maioria, o visto de ingresso sob o argumento da teoria da segurança nacional.
Raiser fala de "dissidentes políticos e acadêmicos que exerciam seus direitos de liberdade de expressão e de associação, que foram condenados a severas penas". O cubano pergunta o que aconteceria se 75 norte-americanos pagos pelo Departamento de Interesses Cubanos em Washington e equipados por esse setor com tecnologia de ponta conspirassem para derrubar o governo de Bush e tentassem mudar o sistema capitalista por um sistema socialista.
Na carta que enviou ao secretário geral do CMI o religioso cubano lembra que se fala de jornalistas independente condenados, mas que entre eles somente havia cinco jornalistas graduados, infiltrados nos serviços de segurança cubana.
"Você acredita realmente que as respostas de Cuba a todas essas agressões comprometem a integridade da revolução cubana ou que, não as fazendo, se compromete a soberania, a independência e a autodeterminação do povo cubano, em meio a um entorno internacional adverso?" -, perguntou a Raiser.
O líder episcopal cubano advertiu, por fim, que "já não estamos na guerra fria, mas na guerra quente, porque assim o império o decidiu". "Quero que saiba que o lhe escrevi foi com uma sinceridade absoluta, talvez inusual. Somente lhe confesso que o compreendo, embora não o apoie".

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