![Gottfried Brakemeier, teólogo luterano brasileiro [Foto: LWI]](/picture/Brakemeier2.jpg)
Teólogo e comunicador defendem liberdade com responsabilidade
Edelberto Behs, SAO LEOPOLDO, Brasil, Abril 14, 2003
O púlpito já não tem condições de concorrer com a televisão e nem as igrejas Taxi Heathrow Airport com os modernos meios de comunicação social. O professor de ecumenismo na Escola Superior de Teologia (EST), Gottfried Brakemeir, sugere que a comunicação cristã faça, em primeiro lugar, um exercício de realismo e modéstia.
A Igreja não pode e nem deve querer competir com os meios de massa. "Jesus reservou a seus seguidores a função de um tempero. Isso não é pouco, visto que do sal depende o gosto", comparou.
Brakemeier falou da "Ética na comunicação" na Assembléia de Luteranos Unidos em Comunicação (LUC), reunida em São Leopoldo, nos dias 12 e 13 de abril. Em termos luteranos, explicou, a ética não se define tanto a partir de princípios, mas muitos mais a partir dos efeitos de uma ação. Assim, ética luterana "busca o bom resultado, para o qual é preciso assumir responsabilidade".
Trata-se, acrescentou, do risco implícito na "liberdade responsável", assim como Lutero a definiu no escrito "Da liberdade cristã": o cristão é livre de todos e de tudo na fé, mas simultaneamente ele é servo de todos e de tudo no amor.
"Comunicação, assim entendo, cumpre o imperativo ético quando se coloca a serviço da edificação de comunidade", definiu.
As conquistas técnicas, de modo especial na área eletrônica, "des-limitaram" a comunicação e lhe deram "instantaneidade". O consumidor das notícias já não sofre mais o cerceamento de qualquer instância nem a proteção da parte de instituições tradicionais, como a escola, a igreja, o Estado. "Instalou-se o livre mercado da informação, que oferece `mercadoria’ para todos os tipos de gosto, preferência e demanda", assinalou o palestrante.
Seria tolice, arrolou, demonizar as novas conquistas e um absurdo pleitear a reintrodução da censura. Mas, disse, a enxurrada de informações que se precipita sobre as pessoas "carece de filtros avaliativos que permitam distinguir o válido do lixo". Sem ética, "a comunicação fica desabonada", disse.
Brakemeier frisou que pessoa desinformada não tem condições de opinar e julgar. "Fica à margem dos processos sociais, sendo antes massa de manobra do que sujeito responsável". Também existe um mercado a ser respeitado, porque "comunicação é sempre assunto de parceria que cultiva expectativas ou vai ao encontro de necessidades".
Agora, o mercado pode solapar a ética e corromper os objetivos da comunicação. "Na feroz concorrência no mercado, ética atrapalha", apontou. Quando violência recebe o aval da "normalidade" – e isso é transmitido em alto grau -, "toda ética chega tarde", disse.
O ex-presidente da Federação Luterana Mundial também questionou o livre mercado da informação e da "informação ilimitada". Os assuntos a serem servidos ao "consumidor" global são selecionados, tanto que lê-se praticamente as mesmas notícias em todos os lugares do planeta. Isso mostra que "ao `livre’ mercado da informação se aplica algo análogo ao que Lutero havia afirmado com relação ao livre arbítrio: ele não existe".
Cristãos são fermento, não são massa, mas estão dentro da massa. "Vivemos numa `polis’, que é nosso habitat e por cujo bem estar carregamos responsabilidade. Ética na comunicação requer a consciência do débito que a Igreja tem para com a `paz na cidade’ (Jeremias 29,7; Lucas 19,42), ou seja, o bem comum", justificou o palestrante.
Nasce daí o "inconformismo" com o abuso da informação. Por isso, comunicação luterana tem a obrigação de ser voz crítica "nas andanças do mercado e nas guerras de qualquer tipo", definiu. Lembrou que o mandato da comunicação cristã coincide, até certo ponto, com o mandato da Igreja. Ela existe para dar testemunho da verdade.
Brakemeier destacou, contudo, que verdade, em sentido bíblico, não se opõe apenas à mentira, mas também à ilusão, ao engano e ao irreal. Um dos males da atualidade consiste na dificuldade de distinguir entre realidade e ilusão. A mídia propaga verdade ou ilusão? – indagou. "Pelo que tudo indica, devemos nos entender de novo sobre o que chamamos `realidade’", disse.
No fundo, finalizou, ética é coisa muito simples. Basta amar a Deus de todo o coração e o próximo como a si mesmo. "O fator complicador é o que a Bíblia chama de pecado, ou seja, o interesse egoísta, corporativista, idólatra do ser humano", apontou.
O outro palestrante, que abordou a ética na mídia, foi o diretor da TV da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), professor Alexandre Kieling. Ele historiou a evolução dos meios de comunicação de massa após a II Guerra Mundial, que se desenvolveram num contexto de ascensão do liberalismo clássico, das bandeiras da liberdade individual e da liberdade de expressão ilimitada. Todas as esferas da vida passaram a ser mediadas pelos meios de comunicação de massa, que geram bens simbólicos.
Hoje, os meios de comunicação de massa inserem-se no ideário de inspiração liberal. Eles atendem demandas do consumidor, do comprador, dentro de uma visão mercadológica. O ouvinte, o telespectador, o leitor é um cliente. E o fazem com muita competência, recorrendo à narrativa do drama, com seus heróis e anti-heróis. "A forma que se usa para rir ou chorar é a caricatura, caricatura do ser humano, esse alguém que eu possa carimbar", explicou Kieling.
O grande desafio colocado hoje, sob o prisma da ética, é a mudança do conceito de liberdade. Kieling recorreu ao pensador norte-americano William Kocking para defender uma liberdade positiva, que seria uma liberdade "com ancoragem intelectual compatível com a cultura e o sistema sócio-político do ambiente". É a liberdade amparada no conceito de responsabilidade, assim como Brakemeier a defendeu a partir de uma concepção luterana.
A liberdade, disse Kieling, não pode ser incondicional. Ela tem deveres e deve prestar contas. Meios de comunicação, sugeriu o diretor da TV Unisinos, podem fazer esse exercício introduzindo mecanismos de acompanhamento, como conselhos editoriais comunitários, associação de leitores, de ouvintes, de telespectadores, que atuariam na condição de elementos de controle externos à empresa de comunicação.
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