Jornalismo é sempre parcial e manipulador
Edelberto Behs, PORTO ALEGRE, Brasil, Abril 11, 2003
"Não exijam do jornalismo o que ele não pode dar: um retrato do mundo". A Taxi Heathrow Airport admoestação partiu do professor Jacques Wainberg, da Comunicação da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), ao fazer, para estudantes de Ciências Sociais, na quinta-feira, um "olhar da mídia sobre a guerra".
O jornalismo, disse, é precário porque parte de uma ótica determinada. É construção de imagem do mundo, mas a partir de uma angulação da realidade. A percepção dos fatos é seletiva, explicou. Por isso, o jornalismo só pode dar uma imagem parcial do mundo.
De acordo com Jacques, não existe jornalismo sem manipulação, ressaltando que não usava manipulação no sentido mafioso do termo. "A escola de jornalismo é uma escola de manipuladores", frisou, porque jornalismo é mediação. O jornalista faz censura todos os dias, ao escolher a foto, formular o título, escrever a legenda e redigir o texto, arrolou.
Apesar da crítica, destacou que fazia uma defesa do jornalismo, não do jornalismo utópico, mas humano. É muito difícil ser jornalista hoje, por causa da visão demonizada que a sociedade tem do profissional. O jornalismo é limitado pelo contexto, que determina valores, e a sociedade tem lá os seus mecanismos de interdição. Daí porque o jornalismo se esquiva de atacar mitos e tabus. Um dos temas mitos no Brasil é a religião, apontou.
O outro painelista da noite foi o professor Oswaldo Biz, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, que fez uma retrospectiva histórica da cobertura jornalística em guerras.
Começou pela Guerra da Criméia, na metade do século XIX, quando ingleses e franceses combateram o czar da Rússia. O tratado de paz, assinado em 1856, impôs a censura de fotos da guerra.
Na I Guerra Mundial, panfletos e fotos fizeram a propaganda das partes em combate. Na II Guerra Mundial, o departamento dirigido por Goebbels produziu 1.350 filmes de longa metragem enaltecendo o nazismo. Das 62 mil escolas então existentes na Alemanha, 40 mil tinham sala de projeção, frisou Biz.
"Era uma verdadeira artilharia da propaganda", disse, destacando que as forças em guerra procuram sempre convencer pela propaganda. Mesmo com o bombardeio de informações sobre o conflito no Golfo pérsico, a população do Ocidente não consegue formar consciência crítica a respeito porque não vê as cenas de horror da guerra, arrolou o professor da PUC.
De outra parte, quem assiste a televisão iraquiana nesses dias vai se convencer que o Iraque está ganhando a guerra. Biz recorreu ao velho refrão, dando conta que na guerra a verdade é a maior vítima, porque nesses conflitos verifica-se a escassez (da informação imparcial) e o excesso de informação (voltada à propaganda).
O professor Jacques observou que existe um certo estado de irritação dos latino-americanos, ao enxergarem, na televisão, que norte-americanos realizaram no Iraque a libertação de uma parte do povo iraquiano que não queria o regime ditatorial de Saddam Hussein. E sugeriu: "É preciso saber ouvir o silêncio".
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