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Sexta-feira, 12 de Novembro de 2004

Walter Altmann, presidente da IECLB [Foto: CLAI]
Walter Altmann, presidente da IECLB [Foto: CLAI]

A ideologia que apoia a globalização é uma idolatria, diz teólogo

SAN SALVADOR, El Salvador, Abril 6, 2003

 A globalização, a dívida externa e a guerra foram temas abordados pelo teólogo brasileiro Walter Altmann, presidente da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB), na palestra de abertura da Pré-Assembléia das igrejas da América Latina e do Caribe filiadas à Federação Luterana Mundial (FLM).

O encontro, que se estenderá até a quarta-feira, 9, reúne 50 representantes de 13 igrejas da região. Essa é a última Pré-Assembléia regional luterana, prévia à Assembléia Geral da FLM, que terá lugar em Winnipeg, Canadá, em julho, sob o tema "Para a cura do mundo".

Altmann disse que o tema da Assembléia provoca uma sensação de urgência por causa da guerra no Iraque, mas traz, por outro lado, um sentimento de impotência diante dos poderes aparentemente absolutos.

Por causa da diversificação religiosa, o termo "cura" presta-se a confusões, uma vez que igrejas neopentecostais associam a enfermidade com a possessão demoníaca e enfatizam a prática da cura, o que pode levar a pensar que as igrejas luteranas se renderam a isso no campo religioso, assinalou.

Para as igrejas luteranas, disse Altmann, a cura é entendido de uma maneira integral, tanto da superação de enfermidades físicas e psíquicas, como da insensibilidade das pessoas aparentemente sadias, das discriminações, agressividade, exclusão social, injustiça, descuido do meio ambiente, violência e guerra.

Quanto à globalização, Altemann afirmou que esse é um fenômeno complexo, baseado em novos desenvolvimentos tecnológicos, em particular na produção, nas comunicações e na informática. Também na integração de mercados e a concentração financeira, a globalização produz uma intolerável exclusão social, arrolou.

Por isso, a partir de uma perspectiva teológica, a ideologia que apoia a globalização pode ser entendida como idolatria, já que demanda sacrifícios constantes ao ser humano, explicou.

Além disso, seu dogma da competitividade total, que julga as pessoas não pelo que elas são, mas pelo que podem produzir e consumir, está em conflito com a gratuidade da vida dada por Deus.

A lógica da exclusão social contradiz a doutrina da justificação, que afirma a igualdade de todos os seres humanos, e a sua falta de sensibilidade contrasta com a identificação de Jesus com os pobres, os destituídos, os marginalizados.

Sobre a dívida externa dos países pobres, Altmann afirmou que as igrejas luteranas da América latina pediram que a Corte Internacional de Justiça, de Haia, investigue a procedência dos mecanismos que perpetuam a dívida e emita um veredito sobre a sua legitimidade.

Qualquer medida de cancelamento da dívida deve vir acompanhada de instrumentos para o desenvolvimento das sociedades em igualdade e justiça, como o resgate da dívida social e ecológica, e a criação de agências multilaterais que coloquem os instrumentos econômicos a serviço do ser humano, em particular os pobres.

Em relação à guerra empreendida pelos Estados Unidos e seus poucos aliados contra o Iraque, o teólogo brasileiro destacou que a política belicista do presidente norte-americano, George Walker Bush, derrubou o movimento mundial de solidariedade com o povo norte-americano, surgido depois dos atentados de 11 de setembro de 2001.

Com muito menos recursos do que os aplicados na guerra poderiam ser resolvidos problemas como a fome mundial e outras carências agudas, denunciou. A guerra, frisou, tem um elevadíssimo custo humano e social, não apenas por causa das mortes de civis, especialmente crianças, mas também pela destruição de recursos básicos para a sobrevivência da população.

Ela também tem trágicas conseqüências para as relações entre as religiões, de modo particular entre o islamismo e o cristianismo. Não porque as igrejas cristãs apoiem ou legitimam a guerra, mas porque Bush (como a seu modo também Saddam Hussein) insiste em invocar a bênção de Deus para sua ação bélica. Alguns movimentos fundamentalistas o apoiam nisso.

A ordem jurídica internacional, construída a duras penas depois da II Guerra Mundial, sofreu um ataque devastador. A esperança de que o fim da Guerra Fria trouxesse uma era de paz mundial foi substituída pela ameaça permanente de uma intervenção militar preventiva unilateral em qualquer parte do mundo.

O tema da Assembléia Luterana Mundial, "Para a cura do mundo", não esconde a realidade, nem é uma ironia. Ele expressa a esperança última de que tudo se sustenta na promessa de que "Deus enxugará toda lágrima", concluiu Altmann.

Grupos de trabalho apontaram, reagindo à palestra, algumas "feridas" que subsistem na sociedade e expressaram a importância de ressaltar os sinais de esperança que surgem nas igrejas e na comunidade.

Entre as feridas foram mencionadas a violência doméstica, a discriminação que sofrem os portadores do vírus HIV/Aids, os problemas ambientais, a violência de gangues de jovens.

Os grupos destacaram que é preciso olhar para o interior das igrejas, pois também ali há feridas e violência. Elas requerem cura, enfatizaram.

Os delegados luteranos à Pré-Assembléia pediram que as análises não fiquem no nível estrutural, macro, sem abordar temas que preocupam as pessoas como indivíduos e as famílias. Ficar nas generalidades pode induzir o pensamento ao imobilismo, argumentaram.


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