"Para la sanación del mundo"
Walter Altmann, SAN SALVADOR, El Salvador
Pré-Assembléia das Igrejas-membro da FLM na América Latina e no Caribe - San Salvador, 6-9 Taxi Heathrow Airport de abril de 2003
Dr. Walter Altmann
Pastor Presidente da IECLB
PRELIMINARES
"Pela cura do mundo." Iniciemos com o reconhecimento do dilema em que nos encontramos. Provavelmente todos e todas nós temos hoje, em meio às perturbadoras e revoltantes notícias acerca da insana Guerra contra o Iraque, um sentimento um tanto ambíguo e de profunda reflexão em torno do tema da próxima assembléia da FLM: "Pela cura do mundo".
Somos colhidos muito intensamente entre a sensação de máxima urgência e relevância do tema, por um lado, e o sentimento de impotência diante dos poderes aparentemente absolutos e que não permitem nenhuma contestação, de outro.
De um lado: nada mais urgente e necessário do que a cura do mundo. De outro: a palavra do poder evoca blasfemamente o dito de Jesus: "Quem não está conosco, está contra nós."
Como resolvemos essa tensão? Podemos manter ou recuperar uma atitude esperançada e esperançadora em meio às forças da morte? Ou devemos sucumbir à catástrofe? Podemos ser instrumentos efetivos da cura do mundo ou devemos cair em resignação diante do império da violência?
De outra parte, encontramo-nos num momento privilegiado do processo que leva à próxima Assembléia Geral da FLM. Somos a última das pré-assembléias regionais. Somos desafiados, não por último, pela Pré-Assembléia africana, a nos posicionarmos no cenário mundial de hoje.
A agenda latino-americana ficaria até certo ponto suspensa pela urgência do tema do guerra? Ou a guerra leva ao ápice tendências nas relações internacionais que as igrejas latino-americanas têm denunciado de longa data? Como se relacionam a agenda latino-americana e a agenda mundial?
Ainda num sentido de introdução, menciono que estarei fazendo referências à experiência brasileira, no país e na Igreja. Tenho também uma experiência relativamente extensa na América Latina, através do Conselho Latino-Americano de Igrejas (CLAI), mas bastante limitada no que concerne o Caribe.
As referências devem ser vistas não como sugestão de um padrão a ser seguido, mas como ilustração de uma maneira concreta particular de se lidar com o tema. Nosso diálogo complementará ou, mesmo, corrigirá a exposição a partir das experiências das demais igrejas e outros países.
O ALCANCE DO TEMA
Temos necessidade de definir o tema, um tanto ambíguo, e talvez limitado, em português e espanhol. A história, a prática e a teologia das igrejas luteranas não pode deixar dúvidas de que o termo "cura" ("sanación", "healing") deve ser entendido num sentido integral: refere-se à superação das enfermidades físicas e psíquicas de pessoas, famílias e comunidades, da insensibilidade das pessoas pretensamente "sãs" para com as PPDs (pessoas com necessidades especiais) das divisões e discriminações à base de gênero, etnia, cultura e religião, da agressiva intervenção humana no meio ambiente, dos processos de exclusão social, da perversão através da injustiça nas relações internacionais, da violência e da guerra.
Contudo, em português e, parece-me, também em espanhol o conceito de "cura" ("sanación") apresenta um problema que não temos tão claramente no inglês "healing".
A palavra tem uma conotação fortemente predominante de superação de enfermidades, sobretudo físicas, contraídas por pessoas. Em termos religiosos, faz-se uma associação praticamente imediata com as curas efetuadas por Jesus e relatadas nos evangelhos. Não há dúvida que se trata de uma dimensão importante da mensagem bíblica e da prática de Jesus, dimensão, aliás, que as igrejas luteranas muitas vezes negligenciaram. A relevância dessa dimensão fica tanto mais patente quando nos confrontamos com pandemias ou epidemias, como o HIV/AIDS ou, mais recentemente, a chamada pneumonia asiática, a síndrome respiratória aguda severa (SARS).
Ainda assim, tomada isoladamente, essa dimensão de cura de enfermidades passa também a ser problemática. Ela não evoca, simultaneamente, pelo menos não em igual intensidade, a noção de perversão social e agressão ecológica em curso.
É verdade que o sentido mais integral da palavra "cura" pode ser evocado por seu complemento: "do mundo". Não se trataria, portanto, de curar pessoas, individualmente, mas de contribuir para a cura do mundo todo.
Mas aí corremos outro risco, qual seja o da moralização. Quando em português se diz que o mundo está enfermo, geralmente não se tem em mente seus graves desvios estruturais, a injustiça nas relações internacionais, mas a precariedade dos valores morais segundo os quais as pessoas vivem. Esses deveriam ser curados.
A questão se complica ainda mais quando tomamos em conta o cenário religioso na América Latina. Como bem sabemos, há em andamento um impressionante processo de diversificação religiosa em nosso continente.
E, para um grande número de igrejas evangélicas, em especial pentecostais, a cura de enfermidades das pessoas mediante oração ocupa um lugar central em sua prática espiritual.
Mais ainda: em igrejas e movimentos neopentecostais as enfermidades podem ser associadas à possessão demoníaca. Ao ouvir o tema "Pela cura do mundo" poderia surgir a impressão de que as igrejas luteranas tenham se rendido a essa evolução no campo religioso latino-americano. Mais uma vez temos aí uma boa dose de ambigüidade.
De um lado, é legítimo e mesmo necessário que incorporemos em nossa prática eclesial e litúrgica a intercessão pelas pessoas enfermas, mesmo através de gestos concretos, como o toque físico com as mãos.
De outro, porém, deve ser rejeitado como incompatível com uma saudável interpretação bíblica, a associação das enfermidades com o pecado humano ou com a possessão demoníaca como suas causas.
O relato da cura do cego de nascença (João 9) nos impõe a conclusão de que a enfermidade deve ser encarada de maneira secular e científica no tocante a suas causas e tratamento médico, acompanhado do acompanhamento pastoral e espiritual das pessoas enfermas.
Como superar essas dificuldades de entendimento do tema que nos é proposto? Sem dúvida, complementando o termo "cura" com outros, como "restauração", "recuperação" e "transformação".
Na IECLB fez-se ainda a tentativa de adaptar o tema a nosso próprio contexto e ao linguajar cotidiano. Anualmente a igreja tem um tema para reflexão e motivação em todas as comunidades. Para este ano de 2003 quis-se seguir o tema da Assembléia Geral da FLM. A versão culturalmente adaptada para nosso contexto encontrada foi: "Nosso Mundo tem Salvação".
Estamos conscientes de que essa versão apresenta outros problemas de ambigüidade em diferentes contextos culturais, por exemplo numa compreensão espiritualizante do que seja "salvação".
No Brasil, porém, ouve-se com bastante freqüência a expressão "Este país não tem salvação". Ou seja: o país não teria conserto, nem perspectiva, ele estaria "perdido". Em meio a esse clima de resignação, a IECLB quis levantar a partir do tema da Assembléia da FLM um testemunho de esperança, transmitindo ânimo evangélico ao povo brasileiro. "Nosso mundo tem salvação." Ele não está perdido. Vale a pena empenhar-se por ele.
Nesse ponto, seja introduzida uma observação quanto ao cenário político brasileiro. O tema da IECLB foi, é claro, definido muito antes das eleições presidenciais no país e não estava voltado para elas.
Contudo, com a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva ("Lula") como Presidente, teceu-se no país uma enorme rede de esperança, no sentido de que, por fim, teremos no Brasil uma política que realmente priorize o social sobre o econômico e esteja voltada para as pessoas mais necessitadas e historicamente oprimidas, discriminadas e marginalizadas.
O símbolo dessa vontade política encontra-se no programa Fome Zero, um firme desejo pessoal do Presidente, um esforço nacional de no prazo curto de poucos anos afastar do país o espectro da fome.
Uma meta ambiciosa, pois nada menos do que 40 milhões de brasileiros têm hoje deficiências nutricionais. Quando Lula viajou do Forum Social Mundial de Porto Alegre ao Forum Econômico Mundial levou consigo aos poderes econômicos e políticos lá reunidos, entre outros, o desafio de erradicar a fome de todo o mundo, uma meta também ambiciosa, mas tecnicamente possível, a qual porém sempre tem esbarrado na falta de vontade política das nações poderosas e no sistema de enorme vantagens para essas nações no ordenamento econômico mundial.
Como seja: surgiu no Brasil, com repercussão também fora do país, um forte movimento de esperança para com o futuro, uma esperança temperada pelo necessário realismo e sobriedade de quem sabe das dificuldades internas e externas de implementação de um programa tão abrangente como o da Fome Zero.
O programa tem uma dimensão emergencial de atendimento alimentar a quem tem fome e outra estrutural de criação das condições para que todas pessoas possam viver uma vida digna.
Estando em El Salvador, lembro que esta região (América Central e Caribe) é com freqüência assolada por terremotos e furacões, em seus efeitos mortíferos terrivelmente acentuados pela miséria e pela injustiça econômica.
As igrejas têm tradicionalmente atuado no sentido de aliviar o sofrimento humano nessas tragédias naturais, mas sempre incorporando também a atuação no sentido de transformação das estruturas de injustiça social.
Quanto à reflexão teológica mais recente, ela tem ampliado o conceito de "diaconia" como incorporando tanto a assistência nas necessidades como a promoção social através da organização da sociedade civil e da atuação em favor da transformação das estruturas injustas.
Trata-se, portanto, de uma "diaconia profética", como foi formulado na recente conferência luterana de diaconia na África do Sul.
Voltando ao Brasil, porém, e ao movimento de esperança lá surgido. Nesse contexto, o tema da IECLB, "Nosso mundo tem salvação", e portanto indiretamente o da FLM, inevitavelmente funciona como reforço da esperança no país.
Mais ainda, porém: o toque "espiritual" no termo "salvação" também contribui para chamar a atenção para uma dimensão que vai muito além do mero atendimento imediato da fome. Deus tem a ver com a condição de vida das pessoas. E Deus quer que sejam resgatadas em sua dignidade todas as pessoas. O próprio Jesus se identificou com os necessitados: "O que fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes." (Mateus 25.40)
A BASE TEOLÓGICA
Há diversos possíveis pontos de entrada teológica para a abordagem de nosso tema. Escolhi o da dignidade humana, baseada no conceito teológico da imagem de Deus, e o do amor de Deus.
A fé cristã entende o ser humano como um ser relacional: com Deus como seu criador e mantenedor de toda a criação, com o próximo como seu semelhante e parceiro social inserido no conjunto do restante da criação.
A realidade de cada ser humano é avaliada de acordo com o estado de suas relações com Deus, com o próximo e a criação. Mais: a fé cristã está baseada no convencimento de que o propósito original e inalterado de Deus consiste em que essas relações sejam caracterizadas por amor, justiça e comunhão.
A partir daí, a consciência ética das igrejas está conformada pelo fundamento histórico-teológico de sua fé. Encontra na Bíblia o testemunho de um Deus misericordioso que, como expressão de seu amor, do amor de suas "entranhas", cria o mundo e a humanidade para viver uma relação de "fraternura" (como disse o teólogo brasileiro Leonardo Boff, criando um neologismo que combina relações de irmandade com afeto carinhoso), em harmonia com a criação inteira e com a própria divindade.
São relações que a Bíblia expressa como shalom, que é paz em um sentido muito mais profundo que a ausência da guerra, incluindo aí toda uma relação filial e amistosa com Deus e de bem estar-social, uma qualidade de vida espiritual e material em sua integralidade.
A fé cristã confessa ter reconhecido a expressão mais sublime desse amor divino na pessoa de Jesus Cristo, que se fez "pobre com os pobres" e traz bem-aventurança a todas aquelas pessoas que têm fome e sede de justiça.
A partir dessa raiz espiritual nasce, nutre-se e cresce também a consciência social das igrejas.
Quando nos defrontamos com a questão dos critérios teológicos para a prática terapêutica ("sanadora") das igrejas, deparamo-nos, em primeiro lugar, com a questão da dignidade de cada ser humano.
Refiro-me à dignidade infinita de cada ser humano como criatura de Deus, sem distinção de qualquer natureza, razão pela qual jamais é possível omitir-se diante do sofrimento alheio nem silenciar diante da tortura e perseguição a "inimigos" e "diferentes" (tragédia experimentada de múltiplas formas em nosso continente), tampouco compactuar com mecanismos de exclusão social, que marginalizam contingentes expressivos e, em muitos casos, crescentes da população, como está ocorrendo em nível global.
Em segundo lugar – para nos referirmos à economia – é preciso mencionar a distribuição eqüitativa dos bens. Em uma das petições da oração mais profunda da fé cristã, aquela que o próprio Jesus Cristo ensinou, dirige-se a Deus a seguinte petição: "O pão nosso de cada dia dá-nos hoje".
Segundo o entendimento de Lutero, como bem sabemos, "o pão nosso de cada dia" não significa apenas o alimento, mas "tudo quanto pertence ao sustento e às necessidades da vida", como alimento, vestuário, habitação, saúde, segurança, paz, inclusive bom governo e justiça social.
Ademais, no primeiro artigo do Credo Apostólico, aquele que se refere a Deus como "criador dos céus e da terra", a comunidade cristã confessa que o mundo e tudo quanto existe não apenas provém de Deus, mas é por ele mantido para o bem da vida.
Assumindo uma postura cética, alguém poderia perguntar se isso é verdade. Ou ainda de modo mais radical: como deixar de reconhecer uma realidade totalmente oposta a essa? A realidade de carências e injustiças desmentiria isso diariamente.
Estamos bem conscientes e experimentamos diariamente que a realidade atual das relações entre os humanos, bem como para com Deus e com o conjunto da criação, está muito distante do propósito divino na criação, sendo profundamente marcada por egoísmo, injustiça e violência.
A pobreza, por exemplo, não consiste primeiramente em dados econômicos e estatísticos (por mais relevantes que sejam), mas sim na experiência palpável, concreta, de comunidades e pessoas angustiadas com sua condição de vida e pelo que sentem como falta de perspectiva real para o futuro.
Estão aí os sintomas evidentes: os impressionantes fluxos migratórios que levam milhões de pessoas, muitas vezes com risco de vida e abandono de laços familiares, culturais e sociais, a buscar a sobrevivência em outras regiões de seus países ou em terras alheias; o incremento extraordinário da insegurança e da violência no campo e na cidade; o desespero causado pelo desemprego; a angústia de pais e mães por não poder proporcionar aos seus filhos e filhas o pão de cada dia.
A realidade concreta dos pobres, sentida no interior e no ambiente em torno das comunidades de fé, não permite que a consciência das igrejas se aquiete.
"Tudo quanto é necessário para o corpo e a vida" falta, pois, dia após dia, para bilhões de habitantes desta terra. Por isso é preciso aprofundar a compreensão da fé na criação divina. Ao confessar a suficiência das dádivas de Deus na criação, a comunidade cristã (com Lutero) evidentemente não desconhece que no mundo há fome ou que na vida real inúmeras pessoas carecem do que é mais necessário e elementar.
O que se confessa é que, na criação, Deus confiou à humanidade, de modo abundante, tudo quanto é necessário para a vida. Há um propósito divino e há um encargo aos humanos que se deriva do fato de que a realidade está muito distante do propósito de Deus, sim, é antagônica a ela.
Essa concepção dual (propósito de Deus e afastamento dele – "graça" e "pecado") faz com que a fé cristã se exercite permanentemente numa dialética de realismo e utopia: pode encarar de frente e nomear destemidamente as múltiplas manifestações de injustiça e opressões, mas nem por isso se deixa abater pela resignação.
Ao contrário, se revigora em favor de uma ação transformadora a partir do horizonte de esperança que encontra na vontade expressa de Deus. Reconhece-se a perversidade, sem abdicar da disposição e da convicção de possibilidade de transformação radical da iniqüidade.
"Pela cura do mundo", portanto, significa ambas as coisas: reconhecimento realista das enfermidades do mundo e, ao mesmo tempo, confiança nos propósitos de Deus.
DESDOBRAMENTOS
Ao desdobrarmos nosso tema para dentro de realidades específicas, temos que ser seletivos. O diálogo posterior deverá ampliar o horizonte. O Manual de Estudos da Assembléia Geral da FLM desenvolve um grande leque de áreas para dentro das quais o tema "Pela cura do mundo" é atualizado.
Globalização
A globalização é um fenômeno complexo de muitas facetas. Trata-se, em todo caso, de um processo de crescente integração em escala mundial, baseada em novos desenvolvimentos tecnológicos, em particular na produção de bens, na comunicação e na informática.
Baseada em avanços tecnológicos concretos, ela constitui uma tendência irreversível. Logo, o desafio ético-social em relação à globalização não consiste em como ela poderia ser revertida, mas antes em enfrentar a questão de seu controle, suas implicações e sua direção.
Em cujo interesse e por que meios ela se desenvolve em sua configuração atual? Nesse processo abrem-se também possibilidades de um intercâmbio solidário de experiências e de conhecimento, possibilidades que as igrejas devem apoiar e explorar.
Mas predomina na globalização, pelo espírito e através dos mecanismos de competitividade total, uma concentração sem precedentes de riqueza e poder, especialmente de parte do setor financeiro e do capital especulativo, causando, de outro lado, intensa exclusão social, já chamada de "apartheid social".
Também em relação à natureza, as conseqüências são danosas. Embora novas tecnologias proporcionem novas formas de produção de bens, que eventualmente consomem menos recursos naturais, elas não deixam de representar uma grave ameaça à integridade da criação, já que, longe de renunciar ao "dogma" do crescimento ilimitado, elas sugerem que o crescimento permanente é possível em base ao desenvolvimento de novas tecnologias. (A causa da doença se apresenta como remédio de cura para ela!).
Assim, novos recursos tecnológicos podem hoje tocar, manipular e controlar os próprios fundamentos da vida, colocando desafios éticos sem precedentes na história da humanidade.
Desde uma perspectiva teológica, podemos afirmar:
a ideologia que dá apoio teórico à globalização pode ser entendida como "idolatria", já que demanda "sacrifícios" constantes de parte dos seres humanos, por exemplo pela redução dos serviços sociais públicos e o desemprego;
o "dogma" da competitividade total, que julga as pessoas não pelo que elas são, mas sim por quão eficientes elas são e pelo que podem produzir e consumir, está em conflito com a compreensão da gratuidade da vida a partir de Deus;
a lógica da exclusão social também se encontra em contradição com a doutrina da justificação, que afirma a igualdade de todos o seres humanos e nega discriminações entre eles em base a méritos individuais;
a falta de sensibilidade para com o "outro" encontra-se em contraste irreconciliável com a identificação de Jesus com os pobres, os destituídos e os marginalizados.
Assim, há a necessidade de construir uma visão nova alternativa (uma "nova ordem mundial justa"), que tenha por prioridade a satisfação global das necessidades humanas básicas, sem exclusões, fomentando a igualdade entre mulheres e homens, a comunhão social e a justiça com respeito à diversidade cultural, bem como o respeito à qualidade e à dignidade de toda a vida.
Como já sugerido, os novos recursos científicos e tecnológicos possibilitaram um incremento sem precedentes da capacidade produtiva, de modo que estão dadas, sim, as condições e os recursos suficientes para satisfazer as necessidades da vida de todos os habitantes da terra.
O que não existe – nem Deus o concedeu na criação – é uma abundância de recursos que possibilite a acumulação concentradora dos bens da terra e sua distribuição gravemente distorcida. Os bens naturais são abundantes, mas sempre têm um limite claro.
Eles são parte da finitude da criação. A concentração de bens e recursos nas mãos de poucos acarreta a falta desses bens e recursos para muitos.
De modo que se coloca como absolutamente prioritária e inadiável a questão da distribuição eqüitativa dos bens, no interior das nações e entre as nações.
Daí que é imprescindível poder detectar-se nas políticas econômicas, tanto em nível nacional como em nível internacional, uma intencionalidade redistributiva de recursos e bens.
Desta forma, o ser humano – e não o ser humano abstrato universal, mas sim as pessoas concretas e particulares – permanece como a medida de todas as políticas econômicas.
Em termos práticos, há a necessidade de fortalecimento da "sociedade civil" e dos movimentos sociais, incluindo-se aí as próprias comunidades eclesiais, animando a ação política com ponto de partida nos níveis local e comunitário, em torno dos desafios, interesses e necessidades suscitados pelo cotidiano.
Em níveis nacionais e internacional há, conseqüentemente, a necessidade de construir e fortalecer redes de solidariedade com o propósito de estabelecer "a partir debaixo" controles políticos e jurídicos eficazes sobre as forças econômicas, à base dos valores fundamentais de afirmação da vida, de construção da paz e da justiça, de respeito à integridade ecológica.
A dívida e(x)terna
O tema da dívida externa dos países deste e de outros continentes é um ponto crucial das relações econômicas internacionais. Não temos aqui espaço para abordar detidamente essa questão, mas podemos nos referir às sucessivas declarações de igrejas luteranas deste continente, bem como da Conferência de Bispos de Presidentes (COP).
Ao longo dos últimos anos não têm faltado análises técnicas que comprovam a ilegitimidade de pelo menos grande parte das dívidas externas dos países do Terceiro Mundo (empréstimos concedidos a ditaduras; majorações unilaterais de taxas de juros etc.), bem como o fluxo líquido de recursos financeiros do Sul para o Norte, com os pagamentos excedendo em muito os empréstimos contraídos.
Tampouco tem faltado a abordagem teológica e "espiritual". Em particular no âmbito da campanha Jubileu 2000, se refletiu sobre as implicações da mensagem bíblica, concernente ao jubileu.
Segundo a prescrição bíblica, a cada ano jubilar (de 50 em 50 anos) proceder-se-ia a uma radical anulação das ineqüidades acumuladas ao longo do período anterior e se restabeleceriam as relações originárias de igualdade, justiça e comunhão solidária.
A terra seria redistribuída, os escravos libertos, as dívidas perdoadas. Ainda que, na prática, o jubileu nunca tenha se concretizado de todo, permaneceu sempre como horizonte utópico a nutrir a crítica social dos profetas e a esperança do povo de Deus.
O Novo Testamento faz confluir a esperança do jubileu na pessoa do próprio Jesus Cristo, conforme Lucas 4.16-21. A característica desse jubileu fica clara: "Evangelizar aos pobres, proclamar libertação aos cativos, pôr em liberdade os oprimidos."(v. 18)
O Magnificat, o cântico de Maria, até mesmo potencia a mensagem de libertação colocando-a para dentro de toda a conflitividade da situação humana, procedendo a uma impressionante inversão: O Espírito "derrubou de seus tronos os poderosos, e exaltou os humildes."
Quanto a implicações concretas para a questão da dívida externa dos países do Terceiro Mundo hoje podemos resumir. Assim como o jubileu no Antigo Testamento, ao prever o restabelecimento de condições de justiça, também pressupunha a manutenção da justiça restabelecida, é essencial que toda e qualquer medida de cancelamento da dívida venha acompanhada de medidas tendentes a propiciar a manutenção das condições para o desenvolvimento da sociedade em igualdade e justiça.
Assim, vincular o cancelamento da dívida externa ao resgate da dívida social (e poderíamos acrescentar ecológica) é um desdobramento lógico da concepção do jubileu.
De outra parte, é igualmente fundamental comprometer os governos de países endividados e os governos de países credores, bem como agências multilaterais, com um código eficaz (de preferência com valor jurídico internacional) que coloque os instrumentos econômicos a serviço do ser humano, em particular dos empobrecidos.
Por exemplo, a transposição de dispositivos legais que protegem os cidadãos em sua capacidade de sobrevivência para salvaguardas análogas em relação aos povos me parece um desdobramento lógico da reivindicação do jubileu, e, ao mesmo tempo, um imperativo de preservação da dignidade de todo e qualquer ser humano.
Além disso, porém é necessário igualmente questionar o problema da dívida externa no tocante à sua pretensa legitimidade. Nesse sentido é de particular relevância a demanda das igrejas da Argentina, apoiada pelas demais igrejas luteranas na América Latina, de que a Corte Internacional de Haia investigue a procedência e os mecanismos de perpetuação da dívida (dívida externa = dívida eterna!), emitindo um veredicto sobre sua legitimidade.
A GUERRA
Encontramo-nos em meio à Guerra contra o Iraque, deflagrada pelos Estados Unidos e seus (poucos) aliados, contra a vontade esmagadora da opinião pública mundial e sem o respaldo do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Sob os mais diferentes ângulos, trata-se de uma tragédia incomensurável.
Em primeiro lugar, a política insistentemente belecista da Administração Bush minou eficazmente o movimento mundial de solidariedade ao povo americano após o atentado terrorista às torres de Nova Iorque e ao Pentágono.
Esse sentimento espontâneo e profundo de solidariedade em nível global constituiu uma base sólida e uma oportunidade única, para se construir um ordenamento global eficaz e ao mesmo tempo sustentado pela confiança e pela fraternidade entre as nações.
Com muito menos recursos do que os que são com facilidade investidos na guerra, poder-se-ia ter superado, por exemplo, a fome do mundo (para me referir a um tópico abordado acima), mas também outras carências agudas, por exemplo na educação e na saúde.
Essa oportunidade única foi jogada ao vento, como também a oportunidade de se chegar a uma solução pacífica do conflito palestino-israelense, com o reconhecimento de dois estados soberanos.
Em segundo lugar, obviamente, a guerra tem elevadíssimo custo humano e social, não apenas pelas mortes, incluindo-se população civil, inclusive crianças, mas pela destruição dos recursos e da base de sobrevivência para a população.
Levas de refugiados deverão ser atendidas, precariamente como se sabe. A melhor e maior assistência humanitária jamais poderá compensar o dano causado, cujos reflexos perdurarão por longos anos.
Em terceiro lugar, são trágicas também as conseqüências para a relação entre as religiões, em particular o Islã e o Cristianismo, não porque as igrejas cristãs estejam favorecendo ou legitimando a guerra, embora alguns movimentos fundamentalistas lhe estejam dando sustentação religiosa, mas porque a Administração Bush (como, analogamente, Sadaam Hussein) insiste em repetidamente evocar a bênção de Deus para seu empreendimento militar.
Em quarto lugar, porém, e nesse aspecto a Guerra contra o Iraque constitui-se muito provavelmente na maior tragédia desde a II Guerra Mundial, a decisão unilateral, baseada no poderio bélico hegemônico, sem o apoio da comunidade internacional, sob a égide da ONU, representou um ataque devastador nos fundamentos do ordenamento jurídico internacional, ainda limitado, mas a duras penas construído após a II Guerra Mundial. Assim, as promessas de que com o fim da Guerra Fria entraríamos num era de paz mundial são dramaticamente substituídas pela ameaça permanente da possível intervenção militar preventiva unilateral em qualquer parte do mundo.
Sobre essa base, a paz que puder se estabelecer será sempre a "paz" que será imposta pela supremacia militar.
Com justa razão, demonstrações de massas por todo mundo têm exigido a paz e a resolução dos conflitos mediante meios pacíficos e nos foros apropriados do concerto internacional das nações.
As igrejas-membro do Conselho Mundial de Igrejas (CMI), expressaram numa impressionante unanimidade, como informou o Secretário Geral Konrad Raiser, a advertência das gravíssimas conseqüências de uma ação bélica e o desejo de que o conflito do Iraque se resolvesse pacificamente no âmbito das Nações Unidas.
Deflagrada a guerra, têm-se sucedido as declarações críticas das igrejas ao redor do mundo. No Brasil, a IECLB tem se engajado no assunto de diferentes formas.
Uma iniciativa a partir da Escola Superior de Teologia levou numerosas comunidades a repicar seus sinos às 10 horas da manhã, um horário inusitado mas propício a provocar a curiosidade das pessoas, então convidadas a orar pela paz.
A IECLB também convocou todas as suas comunidades a em todos os seus cultos, até o término da guerra, orar pela paz no Iraque, incluindo na oração, sempre, a seguinte petição: "Clamamos a ti, Deus da paz, pelas vítimas desta injusta guerra."
Enviamos também uma carta de solidariedade à ELCA e a seu Bispo Presidente, Mark Hanson, por suas declarações corajosas e pastorais em relação à guerra. Uma carta pastoral da IELCB dirigida às suas comunidades explica a posição da igreja e sua fundamentação bíblico-teológica.
Finalmente, em conjunto com a Igreja Evangélica Luterana do Brasil (relacionada com o Sínodo de Missouri) a IECLB emitiu uma declaração pública, em que, entre outros aspectos,
irmanadas, expressam sua solidariedade a todas as vítimas dessa guerra arbitrária, insensata e desumana;
conclamam os povos para a paz, a justiça e o respeito à dignidade de toda vida humana, criatura amada de Deus;
condenam todas as formas de violência, como regimes ditatoriais e ações de terrorismo, mas igualmente a lógica da guerra que não se constitui em meio nem legítimo nem eficaz, muito menos moral, para atingir a paz e vencer o terrorismo, causando, ao contrário, a instigação a ódio ainda maior;
rejeitam o conceito de "guerra preventiva", conceito que deveria ser abolido definitivamente das relações internacionais, bem como políticas unilaterais e baseadas na supremacia do poder militar;
se declaram chocadas com o abuso na invocação do nome de Deus, com o objetivo explícito de legitimar a ação bélica e rejeitam toda e qualquer noção de guerra santa.
A declaração conjunta expressa ainda que Deus é um "Deus de amor e de paz" (II Coríntios 13.11) e que Jesus declarou bem-aventurados os "pacificadores", e estes serão chamados de filhos de Deus (Mateus 5.9) e conclama aos fiéis de se empenharem em iniciativas de paz e em processos de educação para uma paz duradoura, bem como em não esmorecer na oração em favor das vítimas da guerra.
CONCLUSÃO
"Pela cura do mundo." Nosso tema constitui uma ironia? Ou temos, nele, razão para a esperança? Permitam-me mencionar mais uma vez a experiência de minha igreja, a IECLB.
Ao estabelecer anualmente um tema de reflexão e motivação para as comunidades, é também escolhido um lema bíblico. Para acompanhar o tema "Nosso mundo tem salvação" tinha sido escolhido o lema "Deus enxugará dos olhos toda lágrima" (Apoc. 21.4).
Creio ser significativa essa referência do último livro da Escritura que nos abre a visão para o fim dos tempos, para a plenitude em Deus. "Deus enxugará dos olhos toda lágrima" é expressão de uma esperança última que a tudo sustenta. Não esconde a realidade. Há tantas causas para inúmeras lágrimas. Deus enxugará cada uma delas.
Essa promessa divina já sempre sustentou a comunidade cristã através dos tempos em períodos de provação. É a razão última da existência da própria igreja: testemunhar a boa nova em Cristo, boa nova de salvação, paz, justiça e vida em abundância.
A promessa de Deus nos sustenta também agora. Por isso, mais do que nunca, podemos empenhar-nos com esperança e convicção, "pela cura do mundo".

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