A fé dialoga com os gemidos da Criação
Manuel Quintero, BAD SEGEBERG, Alemania, Abril 5, 2003
O pastor Karl Appl, da Igreja Reformada Suíça, destacou, ao falar em nome das denominações Taxi Heathrow Airport européias representadas na consulta sobre Missão e Cooperação, a necessidade de as denominações da Europa e da América Latina cooperarem para "projetar uma imagem mais completa da missão".
No debate do tema "Missão comum em contextos diferentes", Appl disse que "esse processo e essa consulta têm como principal objetivo destacar o mútuo enriquecimento das igrejas nos dois continentes, e buscar mecanismos efetivos para fortalecer os laços existentes. Isso nos permitirá projetar uma imagem mais completa da missão das igrejas, e enfrentar melhor os novos desafios que tanto nossas igrejas como o movimento ecumênico encontram".
O porta-voz das igrejas europeus explicou que, no processo preparatório da consulta, a CEC elaborou e distribuiu documento que foi enviado a mais de 50 líderes de igrejas evangélicas e ortodoxas do continente.
Reconheceu, no entanto, que do mesmo ficou ausente o desafio maior que hoje enfrentam as igrejas: o da guerra e da paz no mundo, à raiz da intervenção no Iraque.
Outra carência do documento, destacou, é que ele não aborda a grande ameaça que representa o fundamentalismo religioso, que "coloca em perigo a boa vizinhança dos países europeus e a paz religiosa dentro do continente".
Essa reflexão, disse, é mais necessária hoje, quando se utiliza a linguagem religiosa para fins bélicos. Entre os principais desafios que as igrejas européias enfrentam, o pastor suíço mencionou o ressurgimento do nacionalismo e o levantamento de novas barreiras econômicas entre a Europa Ocidental e os países do Leste e do Sul, especialmente por meio de "políticas racistas contra imigrantes, migrantes e refugiados".
Appl também fez referência aos processos de secularização, o aparecimento e crescimento de novas formas de espiritualidade não vinculadas institucionalmente, e as profundas mudanças nas relações de gênero.
Um fenômeno muito significativo, apontou, é "o desenvolvimento de sociedades multiculturais que confrontam as igrejas com um dramático câmbio de papéis, de igrejas minoritárias a majoritárias e vice-versa, e inclusive a uma situação de diáspora das igrejas históricas".
Quanto aos temas para a consideração da consulta e das igrejas européias, Appl mencionou "a evangelização como uma expressão da missão", "as tendências pentecostais em diferentes igrejas", "a cooperação e a associação como instrumentos para fortalecer o compromisso missionário", e "o crescente fundamentalismo político e religioso que questiona o papel das igrejas que anunciam as boas novas do Evangelho de Jesus".
Uma visão latino-americana
O pastor argentino Juan Schvindt, porta-voz do grupo latino-americano naquela sessão da consulta, disse que falava a partir de um continente que nas últimas décadas viu o aprofundamento da pobreza por causa do desemprego, a corrupção e a perda de sentido das instituições políticas, econômicas e sociais.
Citando o escritor Eduardo Galeano, Schvindt lembrou que na América Latina não se assiste "a infância selvagem do capitalismo, mas a sua cruel decrepitude". O subdesenvolvimento, anotou, "não é uma etapa do desenvolvimento. É sua conseqüência".
À luz dessa realidade, "o contexto nos demanda uma forte dose de esperança. Se quisermos olhar além do que acontece, é preciso que a base de nossos sonhos e visões não decaia", disse o pastor argentino, que é um dos vice-presidentes do Conselho Latino-Americano de Igrejas (CLAI) e secretário geral da Igreja Evangélica do Rio da Prata (IERP).
Schvindt destacou que as igrejas latino-americanas são "igrejas em contexto e, portanto, em caminho". Em muitos países do continente, acrescentou, a população protestante ou evangélica mostra uma notável tendência ao crescimento e à expansão.
Destacou o desenvolvimento das igrejas pentecostais entre os setores pobres e marginais, o que marcou as sociedades latino-americanas com "uma nova identidade religiosa da qual já não poderão mais desprender-se".
Schvindt falou das igrejas históricas que, diante do empobrecimento econômico e cultural e da secularização de sua membresia, enfrentam a pergunta pela missão e o crescimento a partir de suas próprias identidades eclesiológicas. Declarou que as igrejas evangélicas na América Latina "são focos onde se recria uma nova cultura baseada na solidariedade e na contenção".
Atender as demandas do atual contexto na América Latina demanda, basicamente, "sensibilidade social, zelo pastoral e abertura ecumênica". Esses são, arrolou o pastor, os três aspectos que distinguem uma igreja que serve, acompanha e dialoga.
O vice-presidente do CLAI frisou que a missão é uma ocasião "para a cooperação e a ecumenicidade das igrejas". Lembrou que tanto as igrejas européias como as latino-americanas "falam de uma mesma memória confessante, onde a centralidade da fé dialoga com os clamores e gemidos dessa única Criação de Deus".
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