
Participação da mulher evangélica no governo Lula
BRASÍLIA, Brasil, Abril 3, 2003
A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, negou, em nota oficial, sua participação no Fórum Taxi Heathrow Airport Evangélico Nacional de Ação Social e Política (FENASP), criado, segundo matéria do jornal Folha de São Paulo, para pressionar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva a incluir mais evangélicos na máquina governamental.
"Incluir meu nome numa entidade criada para pressionar o governo Lula é, no mínimo, uma incoerência, uma vez que integro esse governo", disse a ministra na nota. O fundador da FENASP, bispo Robson Rodovalho, dirigente da Igreja Sara a Nossa Terra, desmentiu para o repórter Valter Gonçalves Jr., da revista Eclésia, que a entidade tivesse por objetivo exercer pressão sobre o governo Lula.
Rodovalho frisou, também em nota pública, que o objetivo da FENASP é o de "defender e trazer à luz uma posição profética em defesa dos valores do Reino de Deus para com a sociedade, o governo e o Estado". Outros parlamentares evangélicos, arrolados como integrantes do Conselho Político da entidade, negaram seu envolvimento.
O ministério do presidente Lula conta com a participação, destacada, de duas mulheres evangélicas no primeiro escalão. A nomeação de Marina foi aplaudida pelos ecologistas. Além de Marina Silva, Lula tem a contribuição de Benedita da Silva no Ministério da Ação Social.
As duas têm uma trajetória de vida e uma ascensão política bastante semelhante. Benedita da Silva, 53 anos, carioca nascida na Praia do Pinto, sabe, da infância, o que é a realidade de uma comunidade pobre, carente e discriminada. Professora, ela organizou associações de mulheres na favela do Chapéu Mangueira, onde também trabalhou, mais tarde, como auxiliar de enfermagem.
Formada em Estudos Sociais e Serviço Social, Benedita elegeu-se vereadora pelo PT, em 1982, e deputada federal, em 1986. Em 1994, ela foi eleita ao Senado da República, entrando para a história do país como a primeira mulher negra a ocupar uma cadeira nesta casa do Congresso.
Mãe e avó, socialista convicta e admiradora de Lula e Nelson Mandela, Benedita da Silva contou, em entrevista à Revista Sem Fronteiras que foi publicada em novembro de 1995, ter conversado seriamente com Deus na infância. Nesse diálogo com o Criador, a menina negra e pobre do subúrbio carioca se questionava quanto à sua cor. Benedita chegou a utilizar água sanitária nos banhos, pois queria branquear a pele.
"Eu me tornei negra", confessou Bendita então, reconhecendo que toda pressão e discriminação que sofreu só veio a contribuir para o seu amadurecimento na questão racial.
Em relação à crença e aos ideais religiosos, Benedita reconheceu-se como uma "militante, religiosamente falando", sem deixar de questionar o papel do negro e da mulher na igreja. Segundo ela, fé e política podem ser perfeitamente conciliados, desde que a crença seja materializada, convertida em obras de amparo social.
Marina Silva, 44 anos, mãe de quatro filhos, nasceu no Seringal Bagaço, a 70 km de Rio Branco. Ex-seringueira ligada a movimentos ecológicos, foi fundadora da Central Única dos Trabalhadores (CUT) no Acre, trabalho que desenvolveu junto com Chico Mendes, ativista ecológico reconhecido internacionalmente, assassinado em 1988.
Marina alfabetizou-se aos 16 anos. Quando tinha 20 anos, já cursava a faculdade de História pela Universidade Federal do Acre. Aos 38 anos de idade, a ministra do Meio Ambiente se tornava a mais jovem mulher da história da República eleita para o Senado.
Ela tem orgulho de ser cabocla, e acredita no desenvolvimento cultural que dignifica as populações amazônicas. Religiosa, Marina Osmarina Silva de Lima iniciou sua carreira política militando nas Comunidades Eclesiais de Base. Elegeu-se vereadora de Rio Branco em 1988 e deputada estadual em 1994, pelo PT.
Filha de pai negro, Marina ostentava o sonho de ser freira. Chegou a morar em convento na capital acreana, onde trabalhava, cuidava de horta e cozinha. Obstinada em aprender, esperava todos os dias o apagar das luzes do convento para estudar à luz de velas no dormitório até a madrugada. Marina trocou a jornada religiosa pela militância política.
Benedita da Silva está vinculada à Igreja Presbiteriana do Brasil, enquanto Marina Silva é da Assembléia de Deus.

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