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Domingo, 28 de Outubro de 2007

Israel Batista, secretário geral do CLAI [Foto: CLAI]
Israel Batista, secretário geral do CLAI [Foto: CLAI]

Características e impacto do crescimento evangélico

Entrevista: Manuel Quintero, QUITO, Ecuador

Israel Batista, pastor metodista cubano e secretário geral do Conselho Latino-Americano de Igrejas (CLAI), aborda, nesta entrevista de Manuel Quintero, a situação das igrejas evangélicas no continente, a crescente presença de evangélicos na política, a igualdade religiosa e outros temas da atualidade.

Quintero: Quais são alguns destaques, em sua opinião, das igrejas evangélicas na América Latina neste novo século?

Batista: Para responder tua pergunta, assumo algumas idéias do teólogo pentecostal chileno Juan Sepúlveda e acrescento outras, a fim de assinalar, assim, algumas características importantes de nossas igrejas: elas sabem falar a linguagem do povo, oferecem uma oportunidade de se aproximar a Deus em mediação e são comunidades muito participativas. Além disso, são comunidades que aprofundam uma espiritualidade que dá sentido à vida dos crentes e contribuem na consolidação da família a partir da vida familiar pastoral.

As igrejas evangélicas também projetam um mundo simbólico assentado nas culturas populares e dão um sentido de esperança. Finalmente, considero que elas fomentam um estilo de vida com valores éticos e morais pró-ativos e, algo muito importante, enfatizam a centralidade de Jesus Cristo.

Quintero: O que essas características aportam na atualidade?

Batista: A partir dessas idéias, diria que há características de nossas igrejas que constituem contribuições e desafios para a missão neste novo século.

Em primeiro lugar, a vida em comunidade. Em meio a tantas fragmentações e de um crescente individualismo que alimenta a solidão e a alienação, nossas igrejas são espaços nos quais se experimenta a vida em comunidade. Quer dizer, ter algo em comum, compartilhar, participar, acompanhar-nos mutuamente e atuar juntos. Em segundo lugar, a capacidade para realizar projetos de vida.

Quintero: Que significado isso tem para a própria Igreja?

Batista: Sabemos por meio da conversação que se produz uma recuperação do ser humano que permite alcançar um sentido de sanidade integral, na qual se afirma a auto-estima e a dignidade humana, reconstroem-se as relações humanas e vive-se com sentido de esperança.

Mencionaria, em terceiro lugar, a espiritualidade missionária. Na busca de espiritualidade do ser humano contemporâneo nossas igrejas oferecem uma espiritualidade centrada em Jesus Cristo que implica, em primeiro lugar, viver com a convicção de que somos filhos e filhas de Deus. Trata-se, ademais, de uma espiritualidade com caráter missionário, um sair de nós mesmos e de nossas fronteiras para alcançar os mais necessitados.

Uma contribuição realmente importante de nossas igrejas é de ser reserva no sentido moral. Hoje vivemos não apenas uma crise econômica, mas também uma crise de valores. Frente a padrões de vida que degradam a condição humana e a vida social, nossas igrejas se constituem em reservas morais e éticas que dão sentido ao ser humano.

Quintero: O que significam essas formas para a sociedade?

Batista: Não podemos esquecer, por outro lado, que elas realizam uma diaconia de solidariedade. Nossas igrejas aprenderam a compartilhar, como parte da tarefa evangelizadora. As congregações constituem-se centros de acolhida e promotoras de serviço solidário.

Há todo um trabalho diaconal cotidiano que nossas igrejas realizam e que não são necessariamente projetos que dependem da ajuda estrangeira ao estilo das ONGs. No mundo evangélico há, como bem sabes, uma grande riqueza de diversidade. O mundo pós-moderno, estejamos de acordo ou não, desafia toda uma série de imaginários e, particularmente, os esquemas globais ideológicos, os centralismos, etc.

As igrejas evangélicas oferecem uma riqueza de diversidade mais de acordo com essa mentalidade pós-moderna. Claro que aqui há dois perigos sérios: converter-nos em parte de um mercado religioso, e as fragmentações que não reconhecem a unidade de Cristo em meio à nossa diversidade.

Concluiria assinalando que temos três desafios importantes para este século: articular vozes proféticas na nossa sociedade; contribuir à preservação da criação; e enfatizar o lugar das mulheres na vida das nossas igrejas e na sociedade.

Quintero: Que impacto tem esse crescimento evangélico no continente?

Batista: Desde a chegada do evangelho a nossas terras, apesar de uma etapa inicial de repressão e perseguição religiosa, nossas igrejas brindaram modelos de participação e liberdade em meio ao autoritarismo das sociedades e contribuíram a levantar a dignidade da mulher; promoveram novos estilos educativos que contribuíram para abrir o debate sobre a modernidade. Também fomentaram valores importantes quanto ao conceito de trabalho; criaram redes de saúde pública que contribuem na melhoria das condições de vida.

O crescimento atual de nossas igrejas têm que nos tornar mais responsáveis acerca da qualidade desse crescimento. A passagem de minoria insignificante para maioria significativa tem que produzir valores agregados de maior justiça, paz e igualdade em nossas sociedades.

Diante dos crescentes índices de empobrecimento, violência e corrupção temos que perguntar-nos o que significa nosso crescimento. Seria injusto dizer que esse crescimento não se traduziu em motivações distintas para setores da população. Comparar o crescimento evangélico e a degradação de nossas sociedades para concluir que o crescimento evangélico não se traduz em mudanças é incorreto e simplista. Isso não exime que o quantitativo sempre tem que ter como referente o qualitativo.

Quintero: Em que campo esse impacto é mais notável?

Batista: No social, é importante ver a conexão que se dá entre a situação de pobreza e as igrejas evangélicas. Nossas igrejas cresceram e se desenvolveram tendo a pobreza e a exclusão social como realidades concretas, em meio às quais elas realizaram o seu trabalho pastoral de construção de comunidades e de serviço aos membros mais humildes e necessitados.

Onde quer que exista pobreza, ali tem um templo evangélico e o trabalho de nossas congregações contribui ao melhoramento social e econômicos das famílias a partir da auto-estima e dos valores éticos da vida. Nesse sentido, nossas igrejas promovem a coesão social frente à desintegração de nossas sociedades.

No político, foi-se rompendo em nossas igrejas conceitos teológicos que "satanizavam" a participação no público. As igrejas vêem, paulatinamente, a necessidade de intervir no espaço político. Por fim, no cultural, passamos a ser parte da paisagem das culturas da nossa região. O evangélico tem identidade própria e contribuições importantes em meio à pluralidade de nossas culturas e religiões no continente.

O "ethos" evangélico chegou a ser uma contribuição para a nossa cultura em suas diversidades. É interessante como a própria Igreja Católica Romana, que sempre nos considerou como estrangeiros, incorpora elementos em seu trabalho missionário que já são parte de nossa cultura evangélica. Creio que hoje em dia, como evangélicos, temos carteira de identidade plena.

Quintero: Essas tentativas de participação política nem sempre foram positivas. Por quê?

Batista: Lamentavelmente, alguns esforços estão marcados pela contradição e erros. Existe uma falta de experiência na ação política, e em alguns casos essa participação não está de todo isenta de um ambíguo desejo de poder. Por isso é tão urgente a preparação adequada acerca da participação política de nossas igrejas e seu papel profético e construtivo.

Quintero: Há alguns anos, o teólogo José Miguez Bonino disse que era preciso passar da liberdade de culto à igualdade religiosa na América Latina. Como vês o tema da igualdade religiosa?

Batista: Miguez tem razão. O tema na América Latina não é a liberdade de culto, mas a igualdade religiosa. Nossa parte do mundo é uma das que mais Constituições produziu. Isso significou avanços nas concepções democráticas e participativas. No entanto, a legislação correspondente ao religioso em muitos casos conserva o espírito da época da colônia. Isso se respira ainda no terreno religioso, o conceito de religião única hegemônica.

A América Latina é hoje um continente plural, e um desafio para este século é o de trabalhar o significado e o lugar das pluralidades em nossas frágeis democracias. A igualdade religiosa significa que todos temos os mesmos direitos e deveres. Ainda há setores de nossas igrejas evangélicas que falam de suprimir os múltiplos privilégios que se outorga à Igreja Católica para repassá-los a nós ou simplesmente para distribuir privilégios.

Da mesma forma, há setores católicos aos quais lhe custam muito esforço o reconhecimento que já não podem ser hegemônicos, ter que renunciar a privilégios e ser parte do poder. Falar de igualdade religiosa significa uma aprendizagem para todos no que toca a direitos e deveres, e, também, quanto ao reconhecimento e aceitação do outro e da outra que é diferente de mim.

Quintero: A igualdade religiosa é um tema isolado ou tem conexão com outros?

Batista: A igualdade religiosa está conectada com o tratamento da pluralidade em relação com a democracia que estamos construindo. Se hoje reconhecemos pluralidade de culturas e religiões, a igualdade religiosa se torna num tema de maturidade democrática. E mais, a igualdade religiosa deve ser vista como uma contribuição ao diálogo entre diferentes, e o reconhecimento da diversidade como um dos princípios fundantes de uma verdadeira democracia.

Creio que nesse contexto o Chile constitui-se no exemplo para o tema da igualdade religiosa. As igrejas evangélicas que estavam sob o direito privado como corporações, agora passam ao direito público como igrejas. Tem sido um longo processo de aprendizagem e cremos que no Chile se vai por um bom caminho enquanto experiência da igualdade religiosa e contribuição à consolidação da democracia.

Quintero: O que o CLAI está fazendo, ou pensa fazer, nesta área?

Batista: Como CLAI, temos acompanhado esse processo no Chile. Também estamos trabalhando com as igrejas evangélicas argentinas nesse tema, através da Secretaria Regional do Conselho para o Rio da Prata. Propusemo-nos, nos próximos meses, a convocar uma consulta entre vários países da Região Andina e convidar o Chile para um intercâmbio de experiências. Pensamos, inclusive, em convidar um especialista do Conselho de Igrejas da Espanha, por suas similitudes com a nossa realidade religiosa e as conquistas alcançadas nesse país.

Esse é um tema que tem força em alguns países. Interessa ao Conselho Latino-Americano de Igrejas impulsionar tais processos, a fim de que o tema da igualdade religiosa, além de fazer justiça à riqueza da nossa pluralidade, seja uma contribuição de nossas igrejas à consolidação de uma democracia que reconheça o valor do outro e da outra.